Basquete de Cosmópolis une jovens e impulsiona mudanças sociais
Com destaque crescente, os “Blue Wings”, time de basquete de Cosmópolis (SP), promovem integração entre esportistas e famílias; atletas relatam benefícios psicossociais advindos do esporte

Foto: Lesline Louise
FELIPE PESSOA
O sudeste brasileiro, principalmente o estado de São Paulo, é onde o basquete demonstra maior força no Brasil. É em São Paulo, por exemplo, que fica a cidade de Franca, considerada a Capital Nacional do Basquete. Outras equipes como Paulistano, Pinheiros, Corinthians, Sesi Franca e Bauru também são potências. Mas fora dos holofotes, o basquete também é motor de transformação social em outros contextos, mais afastados das metrópoles.
Em Cosmópolis, cidade paulistana de 60 mil habitantes, o time de basquete Blue Wings — em português, “asas azuis” — vem crescendo em importância e popularidade na região, desde que foi criado em 2011.
IMPORTÂNCIA NA COMUNIDADE
A trajetória dos Blue foi de acúmulo de conquistas. O time, que começou com 20 atletas, atingiu em 2023 a marca de 150 jogadores. Em 2018, recebeu moção honrosa da Câmara Municipal da cidade. Também títulos ao longo dos anos, incluindo vitórias na Liga Metropolitana de Basquete (LMB) e Associação Regional de Basquete (ARB). Revelou, também, mais de 10 atletas que passaram a atuar em clubes grandes, como a Sociedade Hípica de Campinas, Sorocaba Classic e o Pato Basquete, no Paraná.
Mas o time não é destaque apenas pelos números conquistados ou pela popularidade; seus efeitos também aparecem na vida dos atletas.
Luis Louzeira joga pelo Blue Wings há cerca de oito anos, e começou no esporte incentivado pelos amigos da escola, quando ainda estava no ensino fundamental. “Eu gostava muito de futebol, mas o basquete ultrapassou. Não é você gostar somente de jogar. Não. Você ama o esporte”, destaca.
Em sua primeira participação depois de topar o convite dos amigos, Louzeira (ou Louza, como é apelidado) conta, rindo, que foi jogar usando um All-Star — calçado que é inadequado para o basquete —, sem saber qualquer regra do esporte. Depois que começou, quis melhorar.
Luis chegou a jogar pelo SUB17 do clube de Limeira. Saía da escola às 16h, pegava o ônibus às 16h10 e ia treinar na cidade. Retornava a Cosmópolis por volta das 20h, e logo se reunia novamente com os amigos na praça da cidade, onde iam jogar… basquete.
Ele conta que os benefícios, para além de físicos, são comportamentais. “Disciplina, foco, determinação. No basquete, nós sempre queremos estar bem fisicamente, para superar nossos limites. […] não é só você ser bom. Tem que ter inteligência”, afirma.
Recrutado por amigos, Louzeira também recrutou o amigo Daniel Teixeira, que também caiu no Blue Wings de paraquedas, entendendo pouco do esporte. Aprendeu ao longo do tempo, assim como Luis.
“A questão do Blue Wings é que ele não é só um time. É basicamente um projeto social, que acolhe bastante crianças. pessoal na adolescência”, diz. “Se não fosse o Luiz, eu nem sei onde estaria hoje.”
Daniel conta que, quando começou a jogar, sua família tinha poucos recursos financeiros. “Eu não tinha dinheiro para comprar tênis de basquete, nem para mim, nem para meu irmão, que também jogava”, relata. Uma vez, o técnico Felipe Braga, que é presidente da associação à qual pertence o Blue Wings, deu um jeito de presentear os irmãos com calçados para jogar.
A FAMÍLIA TAMBÉM PARTICIPA
Se a visão de quem participa e gosta do esporte é suspeita, um outro lado pode ajudar a equilibrar a balança: quem também percebe os efeitos positivos do basquete são as famílias de atletas.
Gleissia Monteiro é mãe de Levi, e conta que, quando ele tinha cerca de 6 anos de idade, começou a apresentar problemas de coordenação motora. Depois que passou a jogar pelo Blue Wings, no entanto, a coisa mudou de figura: “Ele só tem crescido. Em desenvolvimento, atenção, em tudo. Na escola, em casa”, lista.
Quando a pandemia da Covid-19 começou, os treinos tiveram de ser interrompidos. Mas assim que o período de isolamento chegou ao fim, Levi correu para retornar aos treinos.
Para ela, um dos pontos fortes do time é a integração entre os atletas. “Como o Levi joga também em outros times, em outras cidades, eu vejo muito isso. O time Blue Wings é uma família. São amigos que vestem a camisa uns dos outros. Se não estão bem, eles se apoiam. Não tem essa competitividade”, afirma.
Quem também tem filho atleta e viu na prática os efeitos do esporte é Renata, mãe de Alexandre. Ela conta que seu filho sempre foi muito agitado, e que experienciava emoções com muita intensidade. Além disso, também tinha questões de coordenação motora.
“O Alexandre cresceu muito. Ele tem um tamanho maior que o previsto para a idade dele. E, por crescer um pouco mais, ele tinha problemas de noção de espaço. E isso melhorou muito depois que ele começou o basquete”, conta.
Além disso, o atleta também passou a lidar com os sentimentos de forma mais efetiva, além de ficar mais focado e determinado. “Os desafios foram mais direcionados. Ele conseguia canalizar mais as coisas que ele queria”, afirma a mãe.
Renata concorda que o time fomenta a socialização. Ela própria fez amizades com mães de outros atletas. “Quando a gente chega ao Camp [nome do salão onde acontecem os jogos do Blue Wings” para assistir ao jogo, ele fica parte do tempo assistindo ao jogo e parte interagindo, se divertindo com os coleguinhas, que também são do time”, diz.
Recentemente, o Blue Wings passou a investir mais pesado na presença digital. Entrou na onda das trends de reels no Instagram, além de ter passado a produzir conteúdo ensinando táticas de basquete, preceitos básicos do esporte e dicas de preparação física.
Em um dos conteúdos publicados no perfil de Instagram do time, a frase “Não é terapia, mas é terapêutico” aparece sobre um vídeo estático do garrafão do Camp recebendo cestas, uma seguida da outra. Apesar de esse formato do vídeo ser moda na internet, reproduzido à exaustão por diversos nichos, quem conhece o Blue Wings de perto sabe que chamá-lo de “terapêutico” não está tão distante assim da realidade.
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