Cosmopolense lança livro de poemas sobre sexualidade
‘Ameaça Lavanda’ de Marinna Pires, sob pseudônimo de Nina Cartana, é uma obra de representatividade lésbica e será publicada pela editora Minimalismos

Marinna foi presenteada com o pseudônimo ‘Nina Cartana’ por sua mãe (FOTO: Arquivo pessoal/Marinna Pires)
Raquel Santana
Sob o pseudônimo de Nina Cartana, a jovem escritora cosmopolense Marinna Pires, de 21 anos, se prepara para lançar seu primeiro livro de poemas com temática LGBTQIAPN+. A obra, intitulada ‘Ameaça Lavanda’, será publicada pela editora Minimalismos e tem previsão de lançamento para a primeira semana de outubro.
Marinna foi por anos moradora do bairro Bela Vista IV e estudou em escolas como Paulo Freire, Gepan e Ivete Sala. Hoje ela reside na cidade Rio Grande/RS, onde cursa Letras e Espanhol na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Lá, ela utiliza sua escrita para explorar vivências pessoais e coletivas da comunidade lésbica.
Os poemas presentes em sua primeira obra refletem as experiências de Marinna, com foco na representação do amor entre mulheres, na amizade feminina e na força compartilhada entre elas. “Sempre penso em mulheres lendo meus livros, independentemente da sexualidade ou idade”, afirma a autora.
O livro terá seu lançamento em parceria com Sebo e Livraria Hippocampus.

Atualmente, a jovem vive no sul do país em virtude dos estudos
Inspiração
“Ameaça Lavanda” é um compilado de poemas inéditos de Marinna, que até então nunca haviam sido compartilhados publicamente. “Quando a editora Minimalismos abriu a chamada para publicação de originais, acabei enviando sem muita confiança de que ia dar certo”, explica a autora.
Mas, antes de se lançar como escritora , ela encontrou inspiração nas obras de Caio Fernando Abreu, renomado escritor gaúcho, autor de clássicos como Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. O retrato do homoerotismo nas obras de Abreu despertou em Marinna o desejo de, também através das palavras, expressar seus próprios sentimentos e vivências.
“Acho que o Caio tem isso de confortar com sua escrita. Digo tem, porque apesar de morto, suas obras seguem vivas e fazendo companhia para todos aqueles que se sentem desajustados na vida. Um escritor homossexual em plena ditadura militar brasileira, que dava o que falar, corajoso em assumir ser soropositivo em plena década de 1990. Acho que inspirou desde sempre, porque eu me via nas angústias dele, nos sentimentos viscerais”, explica a jovem.
Os poemas
Marinna conta que busca clareza nos poemas que escreve para que sejam fáceis de compreender. “Geralmente escrevo coisas que sinto, que vejo, me vêm naturalmente. Nenhum poema me veio com dificuldade, talvez me falte mais rigor, mas penso também que perderia um pouco dessa espontaneidade que eu tenho da escrita como ferramenta terapêutica”, explica.
Tudo o que escreve intenciona oferecer ao público lésbico o que, segundo Marinna, ele mais carece: afeto, sexo, cuidado e desejo, especialmente pelo ponto de vista de uma mulher. A autora critica: “Eu sinto falta do erotismo lésbico pela visão lésbica. Digo em nome de todas as mulheres lésbicas que não queremos ser retratadas do ponto de vista masculino, é misógino e fetichista”.
Críticas
Marinna começou a expor seus poemas pouco antes de o livro ser escolhido para publicação, coincidência que a surpreendeu. Sempre muito insegura, ainda não enfrentou críticas diretas. Contudo, ela conta que, na universidade, os poemas que ela costuma colar nos murais são frequentemente rasgados. “Antes eu ficava com raiva, hoje eu acho graça, porque quer dizer que a mensagem chega nesse lugar que incomoda”, conclui.
‘Ameaça Lavanda’

Obra foi escolhida para publicação pela editora Minimalismos
O título da obra de Marinna faz referência a uma expressão utilizada para identificar lésbicas durante a década de 60, quando o grupo passou a lutar por seus direitos dentro das agendas feministas.
A National Organization for Women (NOW), fundada em 1966, é uma das principais organizações feministas dos EUA e continua ativa até hoje. Nos primeiros anos de sua existência, a organização concentrava-se em questões como igualdade salarial, discriminação no local de trabalho e direitos reprodutivos, atraindo muitas mulheres, inclusive ativistas lésbicas.
No entanto, as tensões surgiram quando algumas lésbicas dentro do movimento começaram a lutar para que suas questões também fossem incluídas na agenda feminista. Betty Friedan, uma das fundadoras da NOW, expressou receios em 1969 sobre a inclusão das reivindicações lésbicas. Durante uma conferência, ela se referiu a lésbicas como a “ameaça lavanda” (ou “lavender menace”), sugerindo que seu envolvimento poderia prejudicar a credibilidade do movimento feminista, desviando o foco de questões que ela considerava prioritárias, como a igualdade econômica das mulheres. Esse comentário gerou descontentamento e levou a uma divisão dentro do movimento, com grupos de feministas lésbicas emergindo.
Tem uma sugestão de reportagem? Clique aqui e envie para o Portal ON
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site Portal ON sem prévia autorização por escrito do Portal ON, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido.
Comentários
Não nos responsabilizamos pelos comentários feitos por nossos visitantes, sendo certo que as opiniões aqui prestadas não representam a opinião do Grupo Bússulo Comunicação Ltda.
