26/03/2026

Kiko Pissolato narra contradições humanas em novo livro de crônicas

Coletânea reúne 38 textos sobre temas diversos e será lançada pela editora Patuá nesta sexta-feira (27), em Cosmópolis

FOTO: Sergio Santoian

Felipe Pessoa

A prosa em espiral pode soar familiar para quem já leu obras como A Metamorfose, de Kafka, mas ainda traz uma surrealidade própria: uma das crônicas começa com o narrador contando ao leitor que um terceiro personagem não sabe se é bom em algo, e que, apesar disso, “ele” não costuma desistir facilmente de nada. Em uma outra, o porteiro do céu (sim, o céu) se espanta quando um ateu tenta entrar pelos portões celestiais, e acompanhamos em seguida um debate entre os dois. Aliás, em todos os casos, o que se segue é um debate infinito em espiral, que questiona uma a uma das afirmações feitas anteriormente.

Essa é a toada do novo livro de crônicas do ator Kiko Pissolato, que será lançado nesta sexta-feira (27), pela editora Patuá. O lançamento acontece às 17h, com previsão de término para às 20h30, na Casa Vecchia Cafeteria, localizada na rua 7 de setembro, número 578, em Cosmópolis. Em “Eu conto, ou você conto?”, o ator cosmopolense traz 38 crônicas estruturadas dessa mesma forma, como um grande monólogo interno.

Se em certos momentos o leitor sente-se confuso sobre quem fala de quem, para Kiko essa é uma característica estrutural da obra. O livro borra propositalmente os limites entre o “outro” e o “eu” em uma tentativa de provocar o leitor, “para que ele não saiba o que é o narrador, o que sou eu, o que eu vivi, o que eu não vivi, o que eu observei”, explica Pissolato. Existe ali uma mistura de ficção com fatos e meias verdades, bem como de experiências factuais com outras inventadas.

O ator, que já tem publicados dois livros infantis, sempre teve o costume de escrever textos de forma solta, em cadernos ou arquivos espalhados. Entre o final de 2024 e o começo de 2025, já tinha material suficiente para que sentisse vontade de dar aos textos algum fio narrativo que os ligasse. Para Kiko, esse fio é o próprio ser humano, com suas angústias e contradições. “Nada mais vago do que isso”, avalia, sobre sua própria explicação.

Kiko é dramaturgo e roteirista, o que, para ele, é algo que está intrinsecamente ligado ao seu processo de escrita. Cada uma das operações artísticas em que ele atua (entre elas a música, o teatro e a marcenaria) transborda em suas outras criações, lógica que remete à sua forma de escrita.

“Não escrevo pensando em fazer livro”, esclarece, listando em seguida o tipo de criação que cultiva sozinho, entre elas um romance em andamento e composições musicais. A ideia de unir as crônicas em uma só obra surgiu com a necessidade de entender o olhar de outras pessoas sobre sua escrita.

O ator é formado em educação física pela Universidade de São Paulo (USP), mas passou a se dedicar integralmente aos palcos em 2004, indo depois para TV e Cinema. Em 2018, interpretou o papel principal do filme O Doutrinador, com direção de Gustavo Bonafé. Na obra, Pissolato é Miguel, um policial comprometido que decide se vingar depois que sua filha, atingida por uma bala perdida, morre após não ter sido atendida no hospital onde foi pedir socorro.

Kiko concorda que sua forma de escrita é incomum, o que pode causar certa estranheza no leitor, mas reforça que a provocação é intencional. “Vai bater nas pessoas de formas diferentes”, diz, comparando em seguida sua obra a um feed de rede social, na medida em que as crônicas, em sequência, não têm um formato específico. Elas variam em profundidade, formato, tema, tamanho e etc.

Para quem ler “Eu conto, ou você conto?”, Kiko deseja que fique a sede por ler mais livros, não necessariamente os dele. “Que estimule a leitura, que desperte curiosidade nas pessoas, a vontade de ler cada vez mais e descobrir novos universos”, diz.

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