20/09/2025

Projeto de graffiti transforma muros de Cosmópolis em painéis sobre a história do samba

Iniciativa, financiada pela Lei Aldir Blanc e intitulada “Samba é Nosso”, reúne artistas locais e leva murais temáticos sobre o samba a diferentes bairros da cidade

Raquel Santana 

Muros de Cosmópolis se transformam em telas a céu aberto, ganhando cores e personagens que narram a trajetória do samba no Brasil. A iniciativa é do grupo Samba é Nosso, que utiliza o graffiti para levar arte pública e gratuita a diferentes bairros da cidade.

Idealizado por Samuel Maciel, com produção e curadoria de Ana Beatriz Pereira, arte de Felipe Madeiros e Mateus Lincoln, e comunicação de Bella Boz, o projeto é financiado pela Lei Aldir Blanc e prevê, até seu término, cinco murais dedicados à história da música, da resistência e da força cultural do samba. “A Lei Aldir Blanc nos deu condições de realizar algo que sempre quis fazer, mas que, sem apoio financeiro, ficava inviável. Agora conseguimos pagar materiais, transporte e reunir uma equipe”, explica Samuel, de 29 anos.

A trajetória de Samuel com o graffiti começou cedo, ainda na infância. Aos 9 anos, ele teve o primeiro contato com a arte urbana por meio de revistas, e, entre idas e vindas, sempre se manteve próximo ao spray. Essa relação de longa data fez com que ele enxergasse o graffiti não apenas como uma atividade artística, mas como parte de um movimento cultural. “O graffiti vai muito além de um passatempo. É um compromisso com um movimento”, afirma.

A ideia de levar o graffiti para as ruas cosmopolenses ganhou força com o incentivo da produtora cultural Ana Beatriz, de 28 anos, que o estimulou a se inscrever em um edital municipal de apoio à cultura.

“A ideia nasceu do desejo de trazer mais cores para a cidade de Cosmópolis. Sempre tivemos vontade de realizar um projeto de mural, e o samba aparece como tema porque dialoga totalmente com o graffiti. São duas expressões culturais negras e periféricas que, apesar do preconceito histórico, seguem resistindo ao tempo e se consolidam como patrimônio cultural”, diz Ana Beatriz.

Para dar vida aos murais, Samuel convidou dois amigos de longa data: os artistas Felipe Madeiros, de 32 anos, e Mateus Lincoln, de 29. Ambos têm trajetórias marcadas pelo graffiti, cada um com um estilo próprio, e aceitaram o desafio de adaptar suas linguagens para representar o samba nos muros da cidade. A experiência exigiu experimentação e novas abordagens.

“O processo criativo foi desafiador, pois precisei sair da minha zona de conforto e criar um novo estilo de desenho que eu não estava acostumado. Meu traço é mais estilizado, com características bem marcantes. Mas foi legal ver que consigo desenvolver um estilo diferente do que estou acostumado”, relata Felipe.

Já para Mateus, a adaptação foi ainda mais intensa. Sua produção sempre esteve ligada ao hip hop, e a mudança de tema representou um desafio em todas as etapas: da concepção das ideias até a execução no muro. O artista conta que foi necessário mais tempo para repensar sua forma de criar e ajustar seu estilo ao contexto da obra. “Como foi a primeira vez fazendo um tema que não era do meu estilo, o processo criativo, tanto para pensar nas ideias quanto para começar a desenhar, foi mais demorado”, explica.

Os murais

Para construir os murais, o grupo realizou pesquisas sobre a história do samba, a dividiu em trajetórias e em três grandes eixos narrativos: passado, presente e futuro. “Essa divisão orientou tanto os episódios quanto as personalidades representadas”, explica Ana.

  • Passado – “Batucada dos nossos tantãs”: dois murais retratam as raízes do samba. Um deles mostra a chegada do samba ao Brasil, suas origens africanas, ancestralidade e essência. O outro homenageia Tia Ciata, figura fundamental para a consolidação do samba no início do século XX.
  • Presente – “Sorriso Negro”: dois murais que mostram o samba atual, vivo, urbano e plural, destacando sua força nas rodas de samba, no carnaval e como elo entre gerações.
  • Futuro – “Não Deixa o Samba Morrer”: um mural inspirado no conceito Sankofa, que projeta o futuro do samba e da resistência preta, conectando preservação cultural, inovação e juventude.

Até o momento, os dois murais do eixo passado, “Batucada dos nossos tantãs”, foram grafitados em muros da região conhecida como “Colina”, atrás do bairro Bela Vista III e às margens da rodovia SP-332. A pintura do terceiro mural, o “Sorriso Negro”, acontece neste sábado (20), na esquina da rua Juscelino Kubitschek de Oliveira com a rua Alberto Stuchi, no bairro Villa Cosmopolita.

A escolha dos muros

Os dois primeiros murais, grafitados na “Colina”, só foram possíveis graças à autorização de moradores da região. De acordo com Samuel, a relação entre a vizinhança e a arte já é antiga: desde 2013, artistas, incluindo ele, levam seus graffitis para o local.

“Um dia, eu e o [Mateus] Lincoln estávamos grafitando um muro na Colina. A dona de uma das casas viu a gente pintando e comentou sobre o muro dela. Na época, o projeto [Samba é Nosso] tinha acabado de ser aprovado, entre janeiro e fevereiro deste ano. Ela disse: ‘Ah, meu muro é esse, o muro do meu filho é esse… se vocês quiserem…’. Na hora me veio a ideia: ‘Pô, cara, tem um projeto!’. Assim nasceu o primeiro mural”, conta Samuel.

A estratégia do grupo prevê que os murais despertem o interesse de outros moradores, que possam oferecer espontaneamente seus espaços. Segundo Samuel, todas as pinturas são feitas mediante autorização. “A gente chega, conversa com o dono e pede autorização. Eles autorizam, a gente vem e faz a arte.”

No caso do Samba é Nosso, a proposta é espalhar murais por diferentes regiões de Cosmópolis, com pelo menos um em cada bairro. “Enquanto artistas e grafiteiros, sempre buscamos colorir a cidade, muitas vezes investindo do próprio bolso e fazendo por amor, sem retorno financeiro. Com este projeto, esperamos abrir portas para novas oportunidades, seguir ocupando e transformando os espaços públicos, mas agora com apoio e reconhecimento que fortaleçam a continuidade da arte urbana local”, declara Ana Beatriz.

Divulgação do projeto

Para ampliar o alcance da iniciativa, o grupo aposta nas ferramentas digitais para divulgar o Samba é Nosso. A comunicação está sob os cuidados de Bella Boz, de 24 anos, que tem dado ao projeto uma nova presença nas redes sociais.

“Estamos usando bastante a internet a nosso favor para nos comunicarmos com o público mais jovem. Acredito que, cada vez mais, ela tem desempenhado esse papel, especialmente entre jovens periféricos e negros. Também temos trabalhado com a questão da relevância e da influência. Eu atuo na área de comunicação e já tenho um público nas redes sociais, então conseguimos unir o útil ao agradável”, explica Bella.

A estratégia de comunicação busca produzir conteúdos que apresentem os murais, suas origens, o processo criativo e a produção de maneira acessível, sem se limitar apenas ao graffiti em si. A proposta é despertar interesse ao mostrar o que está por trás das obras e, assim, atrair novos públicos.

Para Bella, o Samba é Nosso vai além da junção entre graffiti e música: trata-se de um projeto que propõe refletir sobre a história do povo preto, incluindo as religiões de matriz africana. Ela destaca que esse tema, muitas vezes, encontra resistência em função do racismo e do preconceito, o que restringe o alcance da mensagem. Nesse sentido, as redes sociais cumprem o papel de ampliar o diálogo, levando a discussão para além de um nicho específico e transformando-a em instrumento de propagação de conhecimento.

“Quando se trata de um assunto que envolve racialidade e o samba como ato de protesto e expressão histórica, é inevitável falar também sobre religião, já que o samba surgiu desse contexto. Sabemos que essa abordagem inicialmente dialoga com um nicho específico, com determinados grupos, para depois ganhar sentido e alcance junto a outras pessoas”, conclui.

O impacto 

O projeto Samba é Nosso não se limita à criação de murais artísticos. Para seus idealizadores, a iniciativa busca intervir diretamente no modo como Cosmópolis se relaciona com a cultura e com seus espaços públicos. A proposta é transformar ruas e muros em locais de encontro e pertencimento, valorizando manifestações periféricas muitas vezes invisibilizadas. Nesse sentido, Ana Beatriz destaca que a arte urbana pode ser um agente de mudança no cotidiano da cidade.

“O principal impacto que esperamos é movimentar a cena artística da cidade, ocupando e fortalecendo os espaços públicos como lugares de expressão, pertencimento e valorização cultural. A arte urbana tem essa potência de transformar o cotidiano”, afirma.

Ela acrescenta que a execução do projeto em um município de porte médio, como Cosmópolis, também funciona como um chamado às autoridades locais para que prestem mais atenção às iniciativas culturais periféricas. Segundo Ana Beatriz, os murais podem servir de exemplo para que políticas de incentivo à cultura não sejam apenas pontuais, mas se tornem contínuas.

“Por ser um projeto realizado pela Lei Aldir Blanc, queremos ainda evidenciar o quanto essas políticas públicas são fundamentais para artistas e coletivos culturais. A ideia é que, ao verem o resultado e o retorno positivo para a população, mais pessoas sejam estimuladas a acreditar na arte como possibilidade de trabalho e transformação social, e que o município continue fortalecendo e abrindo novos editais e oportunidades para a cultura.”, explica.

Para Samuel, os impactos da arte são perceptíveis no cotidiano da comunidade. Ele observa que os murais despertam curiosidade, estimulam a criatividade e tornam os espaços mais acolhedores. Na sua visão, a arte urbana representa uma forma de cuidado com a cidade e com as pessoas, capaz de transformar tanto o ambiente físico quanto o emocional.
“Acho que ajuda na construção do ser humano e do ambiente. Deixa a vida mais colorida, literalmente, em vários aspectos. Acalma a cabeça, o coração”, conclui.

FOTOS: Arquivo pessoal
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