25/12/2025

Quando o silêncio pesa mais: mães enlutadas enfrentam as festas de fim de ano com dor, fé e acolhimento

Projeto ProSeguir oferece escuta, apoio e ressignificação do luto materno em um período marcado por expectativas de alegria e união

Daniel Sabino

Enquanto muitas famílias se preparam para celebrar o Natal e a chegada de um novo ano, para mães enlutadas esse período costuma intensificar a dor da ausência. Datas simbólicas, reuniões familiares e lembranças afetivas escancaram um vazio que não se fecha com o tempo. É nesse contexto que iniciativas como o Projeto ProSeguir ganham ainda mais relevância, oferecendo um espaço seguro de acolhimento, escuta e partilha.

Criado com o objetivo de apoiar mães que perderam seus filhos, o ProSeguir surgiu a partir da necessidade de olhar para um luto que ainda é pouco falado e, muitas vezes, silenciado pela sociedade. A proposta é simples e profunda: proporcionar encontros presenciais onde essas mulheres possam trocar vivências, falar da dor sem julgamento e encontrar apoio em quem vive experiências semelhantes.

Segundo Doni Candido, psicóloga e coordenadora do ProSeguir de Holambra, o grupo atua diretamente na elaboração construtiva do luto. “O acolhimento e a escuta são fundamentais porque validam a dor e o sofrimento dessas mães. Aqui não há comparações nem conselhos prontos. Existe respeito pelo tempo de cada uma e um olhar humano, que ajuda a organizar a experiência interna e a prevenir o isolamento”, explica.

Nos períodos de festas, como Natal e Ano Novo, o trabalho se torna ainda mais sensível. “São datas marcadas por expectativas de alegria, união e renovação. Para essas mães, a dor costuma se intensificar. No grupo, elas encontram sustentação emocional umas nas outras, porque compartilham dores semelhantes. Isso reduz o sentimento de viver o luto sozinha”, destaca Doni.

A professora aposentada Maristela Delgado, uma das participantes do ProSeguir, conhece bem essa realidade. Mãe de Hugo Delgado Carlstron, que faleceu aos 25 anos, em 31 de julho de 2019, ela conta que a dor é diária e constante. “Você pensa no seu filho 24 horas. Só não pensa quando está dormindo — e mesmo assim, às vezes sonha com ele. Quando acorda, vem aquele choque: ‘Nossa, ele realmente não está aqui’. Parece algo que a gente nunca quer aceitar”, relata.

Apesar da dor, Maristela afirma que segue encontrando motivos para continuar. “A expectativa para o Ano Novo existe, porque a gente continua vivendo. Se eu ainda estou aqui, acredito que Deus tem um propósito para a minha vida. Meu filho teve uma missão curta, de 25 anos, mas foi um privilégio enorme ter ele comigo por esse tempo”, diz.

Ela conta que o luto se manifesta nos detalhes do cotidiano, especialmente nas datas comemorativas. “Final de ano, aniversário, tudo remete a ele. Até quando vou cozinhar algo que eu sei que ele gostava, eu penso nele. Todo dia tem um momento difícil.”

No ProSeguir, Maristela encontrou um espaço de acolhimento que transformou sua forma de viver a dor. “É um lugar onde a gente pode falar, chorar e ser ouvida, sem ser criticada. Cada mãe ensina algo com a forma como enfrenta o luto. A gente aprende, apoia e também se sente útil”, afirma. Além dos encontros mensais, o grupo mantém contato durante a semana, oferecendo apoio contínuo, palavras de conforto e orações.

Para Doni, essa transformação não significa apagar a dor, mas ressignificá-la. “A participação no grupo não elimina o sofrimento da perda de um filho. O que muda é a forma como essa dor é vivida. As mães entendem que chorar, falar e pedir ajuda é um ato de cuidado consigo mesmas. A ressignificação acontece aos poucos, no tempo de cada uma, e está mais ligada a continuar vivendo, apesar da dor, do que à ideia de superação.”

A coordenadora reforça que ressignificar não é negar. “O amor não termina com a morte. Não se trata de esquecer ou ‘ficar bem’, mas de aprender a viver com uma dor que continua existindo. As memórias honram a história dos filhos e fortalecem a empatia entre as mães.”

Apesar de sua importância, o luto materno ainda é um tema pouco discutido. Para Doni, isso acontece porque ele toca em feridas profundas. “A perda de um filho rompe a ordem natural da vida. Muitas pessoas não sabem como acolher uma mãe enlutada e acabam se afastando, por medo da própria vulnerabilidade.”

Dar visibilidade a esse luto é, segundo ela, uma responsabilidade social. “Reconhecer que um filho não deixa de existir na história da mãe é fundamental. Falar sobre o luto mantém vivo esse vínculo e humaniza essa dor.”

Maristela deixa uma mensagem para outras mães que atravessam as festas com o coração apertado. “Não perca a fé. Converse com seu filho, sinta a presença dele no coração. Se não tiver vontade de sair de casa, fique quietinha, na sua solitude. Eles não estão mais aqui de corpo presente, mas vivem dentro da gente. Um dia, a gente vai se encontrar de novo.”

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