“A essência dele continua lá”: filho homenageia pai que transformou desafios em lições de amor
Mesmo diante das dificuldades impostas pela saúde mental e por um acidente, Lydhon Botasso relembra a presença, a dedicação e os valores que fizeram do pai uma referência em sua vida

Ana Clara Diogo
Neste sábado (9), data em que é celebrado o Dia dos Pais, conversamos com Lydhon Botasso, que compartilhou a história de amor, cumplicidade e superação vivida ao lado do pai, Jair Adolfo Botasso, que enfrenta problemas de saúde mental há muitos anos. Apesar dos desafios impostos pela depressão e, mais recentemente, por um acidente que comprometeu sua autonomia, Lydhon destaca que a relação entre os dois sempre foi marcada pelo carinho, pela presença e por momentos especiais que permanecem vivos em sua memória.
Sobre o pai, Lydhon relembra um pouco da trajetória e da relação construída ao longo dos anos.
“Meu pai sempre teve uma vida um pouco conturbada, principalmente nos relacionamentos. Ele e minha mãe se separaram quando eu ainda era pequeno. Apesar das dificuldades que enfrentou ao longo da vida, comigo ele sempre foi um pai muito presente, amoroso e carinhoso.
Com o passar dos anos, ele perdeu os irmãos e depois a mãe, ficando praticamente sozinho. Como também nunca foi de ter muitos amigos e convivia com a depressão há muito tempo, acabou se isolando ainda mais.
Mesmo assim, nossa relação sempre foi muito próxima. Nós compartilhávamos os mesmos gostos, como filmes, músicas e videogames, e aproveitávamos cada momento juntos. Mais tarde, após um acidente que comprometeu sua saúde, ele passou a precisar de cuidados especializados e foi para uma clínica chamada Jaguar Senior, onde segue em tratamento.
Apesar de todos os desafios, nossa história sempre foi marcada pelo carinho e pelo amor entre pai e filho.”

Diante dos desafios da saúde mental, ele explica como esse processo transformou sua forma de compreender e enxergar a relação com o pai.
“Sim. A depressão do meu pai influenciou muito a forma como ele vivia e se relacionava com as pessoas. Conviver com isso foi um desafio, mas também um grande aprendizado.
Aprendi a ter mais empatia e a entender que nem sempre uma pessoa consegue demonstrar felicidade ou disposição, mesmo quando parece ter motivos para isso.
Como ele era muito solitário, muitas vezes eu era seu principal apoio emocional. Nunca enxerguei isso como uma obrigação, mas sabia que, sem mim, ele praticamente não teria mais ninguém.
Apesar das dificuldades, nossa relação sempre foi muito boa. Compartilhávamos os mesmos gostos, conversávamos sobre tudo e passávamos muito tempo juntos. A saúde mental dele marcou nossa história, mas também me ensinou a ser mais compreensivo e humano.”
Ao recordar um momento em que viu a força, a coragem e o amor do pai, Lydhon relembrou os últimos momentos ao lado da avó.
“O momento mais delicado do meu pai foi quando ele começou a cuidar da minha avó. Com mais de 90 anos, ela sempre foi muito independente e não precisava dos cuidados de ninguém. Mas, quando começou a precisar de ajuda para andar, comer e realizar as tarefas do dia a dia, meu pai chegou a adiantar a aposentadoria para poder cuidar dela.
Foi nesse momento que ele mostrou que, na hora que precisa, no ‘vamos ver’, ele é a pessoa que está ali para ajudar. Naquela época eu morava com ele e pude observar de perto as dificuldades, as revoltas e os desafios dos últimos momentos de vida da minha avó.
Quando vi que ele conseguiu ser alguém para ela, cuidando, ajudando e realmente estando presente em todos os momentos, foi quando ele provou ser uma pessoa de caráter e de qualidades muito fortes, alguém que realmente sabe cuidar de quem ama.
Foi nesse momento que eu senti muito orgulho do meu pai.”
Entre as lembranças da infância, destaca um dos maiores gestos de carinho do pai.
“É difícil escolher um único momento, porque tenho muitas lembranças de carinho com meu pai. Mas uma que nunca esqueço foi quando ele levou para casa uma lona que seria descartada no trabalho e transformou aquilo em um enorme colchão de ar para eu brincar. Depois, ainda montou um escorregador com ela. Eu me diverti muito.
Essa lembrança ficou marcada porque mostra quem ele era. Mesmo convivendo com a depressão, quando se tratava de mim, ele sempre dava o máximo. Ele fazia de tudo para me ver feliz e transformava coisas simples em momentos inesquecíveis. Esse era o jeito dele de demonstrar amor.”
Ao falar sobre os maiores ensinamentos do pai, destacou que os exemplos valeram mais do que qualquer palavra.
“Meu pai me ensinou, sem precisar dizer muita coisa, o que é ser honesto, ter honra, caráter e fazer o que é certo. Ele sempre dizia que a gente sabe, pela própria consciência, o que está certo e o que está errado, e que deveria seguir pelo caminho certo.
Claro que todos erram, mas esse ensinamento sempre ficou muito forte em mim. Até hoje, as pessoas costumam dizer que eu sou muito correto, muito ‘certinho’, e isso vem da educação que recebi do meu pai e da minha mãe.
Eles sempre foram pessoas muito honestas e verdadeiras. Meu pai me ensinou a falar a verdade, a agir com sinceridade e a fazer o que é certo. Esse, sem dúvida, foi o maior legado que ele me deixou.”
Na trajetória dos dois, o filho aponta um momento que considera um divisor de águas na relação com o pai.
“Um dos momentos mais marcantes da nossa história foi quando, aos 11 anos, decidi que queria morar com meu pai e minha avó. No início, ele até tentou me fazer pensar melhor sobre essa decisão, mas, quando percebeu que era isso que eu realmente queria, me apoiou e fez de tudo para que desse certo.
Foi a partir desse momento que passamos a conviver diariamente. Morei com ele até entrar na faculdade, e esse período fortaleceu ainda mais a nossa relação. Compartilhamos muitos momentos simples, mas especiais, e essa convivência foi, sem dúvida, o maior divisor de águas da nossa história.”
Ao definir o pai em uma palavra, Lydhon escolheu “amor”.
“Eu diria que meu pai é amoroso. Com muitas pessoas ele não tinha tanta proximidade, mas comigo sempre foi muito, muito carinhoso. Era de abraçar, beijar, falar que me amava e demonstrar esse sentimento sem medo.
Aprendi muito com ele e com minha mãe sobre a importância de demonstrar carinho. Nunca existiu aquele tabu de um pai não poder abraçar o filho ou dizer que ama. Meu pai sempre teve muito afeto e consideração por mim.
Hoje vejo que grande parte do meu jeito de ser vem dessa criação, dessa liberdade de demonstrar sentimentos e emoções. Por isso, se eu tivesse que definir meu pai em uma palavra, seria amoroso.”
Entre as qualidades do pai, destaca a criatividade e a habilidade de transformar ideias em realidade.
“Eu diria que meu pai era muito engenhoso, muito criativo. Ele pegava um projeto e, mesmo sem saber exatamente como fazer, já começava a colocar a mão na massa.
Ele aprendeu o básico de costura com a minha avó e, de repente, já estava fazendo cortinas, roupas e vários trabalhos com tecidos. Ele também era artista plástico, trabalhou na área de quadrinhos quando era mais jovem e sempre teve uma paixão muito grande por desenhar e criar.
Mesmo depois de seguir uma carreira mais estável, nunca deixou a arte de lado. Tenho alguns quadros dele até hoje e guardo com muito carinho, porque são trabalhos incríveis.
Essa habilidade dele sempre me inspirou. Eu sou bem diferente nesse sentido, tenho mais dificuldade para aprender coisas manuais e artísticas, mas admiro muito esse talento que ele tinha. Meu pai realmente tinha um dom para criar.”

Para finalizar a homenagem neste Dia dos Pais, Lydhon deixou uma mensagem de gratidão ao pai.
“Eu só tenho gratidão. Gratidão por tudo que ele me ensinou, por todas as lembranças, experiências e momentos que tivemos juntos. Por tudo que ele fez por mim e continua fazendo, mesmo hoje de uma forma diferente.
Atualmente, é o meu papel como filho estar ao lado dele, ajudar quando precisa, acompanhar em consultas e estar presente. E tudo isso fica muito mais fácil quando eu lembro de tudo que meu pai fez por mim.
Ele sempre me incentivou a seguir o meu próprio caminho, a fazer aquilo que eu gosto e acredito. Sempre mostrou que, no fim, o que importa não são apenas bens ou dinheiro, mas aquilo que a gente aprende, as experiências que vive e as pessoas que fazem parte da nossa trajetória.
Eu amo muito meu pai e agradeço por tudo que ele fez por mim e pelo pai que ele é. Ele passou por muitos desafios, como a depressão, o acidente e todas as mudanças que vieram depois, mas a essência dele continua lá.
Mesmo que muita coisa tenha mudado, o amor dele por mim e o meu por ele continuam. E isso é o que realmente importa.
Obrigado, pai, por tudo. Eu sou quem sou hoje por tudo que aprendi com você e com a minha mãe.”
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