“A literatura é um antídoto, uma terapia e isso me mantém vivo”, diz escritor de Jaguariúna
Autor de mais de 10 obras, Jeff Ferreira atua como colunista, colabora com sites especializados em música e é cofundador da Editora Dando a Letra, onde trabalha como editor, capista, diagramador, ilustrador e tradutor

Ana Clara Diogo
Neste sábado (25), é comemorado o Dia Nacional do Escritor, data instituída em homenagem ao I Festival do Escritor Brasileiro, realizado em 1960. Passadas mais de seis décadas, a literatura continua despertando esperança, mas também enfrenta desafios em um cenário marcado pelo avanço das tecnologias digitais e pela redução do consumo de livros físicos, o que leva muitos a questionarem o espaço da leitura e da escrita na sociedade atual.
Para mostrar que a literatura permanece viva, entrevistamos Jeff Ferreira, que compartilha sua visão sobre o papel da escrita, da leitura e da produção literária nos dias de hoje.
Jeff Ferreira é paranaense e passou a maior parte de sua vida em Jaguariúna. Suas formações acadêmicas aconteceram na cidade e, atualmente, ele atua como colunista e colabora com sites especializados em música. É cofundador da Editora Dando a Letra, selo especializado em literatura marginal e literatura Hip Hop, onde atua como editor, capista, diagramador, ilustrador, tradutor e também autor, com obras publicadas no Brasil e em países vizinhos.
Sobre o início de sua trajetória, o escritor explica que o amor pela escrita começou com outra arte: a música. Ele queria que as pessoas sentissem o que ele sentia ao ouvir um disco e, por isso, passou a resenhar os álbuns de que gostava.
“Quando dei por mim, estava publicando os textos no Submundo do Som, site que criei em 2014 para falar de música underground. Comecei a entrevistar artistas e ídolos que cresci ouvindo.”
Antes disso, em 2012, Jeff publicou seu primeiro livro, Manguebit – A Revolução da Lama, um livro-documentário sobre a cena musical pernambucana do início dos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A.
Questionado sobre a escolha da literatura marginal, o autor explicou o significado do termo.
“Importante frisar que o termo marginal vem de ‘estar à margem’, ou seja, não estar dentro. No caso da literatura, é não estar dentro do mercado editorial e da grande mídia.”
Linha do tempo das publicações
2012 – Manguebit – A Revolução da Lama
Primeiro livro publicado, dedicado ao movimento Manguebeat.
2017 – Submundo do Som Entrevistas – Ano Um
Reúne as primeiras entrevistas realizadas pelo autor.
2018 – 30 Anos do Disco Hip Hop Cultura de Rua
Pesquisa sobre um dos discos mais importantes do hip hop brasileiro.
2021 – Assim Que É – A História do RZO
Trajetória do grupo de rap RZO.
2022 – Cabe Em Olho e Pesa Uma Tonelada
Primeiro romance de ficção com temática marginal.
2022 – O Agiota
Segunda obra de ficção.
Após 2022 – Trap É Hip Hop? – As Metamorfoses do Rap
Pesquisa sobre a evolução do trap.
Em seguida – Pelusa: Diego Armando, o Maradona
Biografia de Diego Maradona.
Na sequência – DIMC: Sobrevivente – A História de Elder Teles
Biografia do rapper Elder Teles (DIMC).
Posteriormente – Mata-Rato – Era Uma Vez no Bar
Novo romance de ficção.
Depois – Garotas de Chuteiras
Primeiro livro infantojuvenil, realizado com apoio da Lei Paulo Gustavo.
2025 – Histórias Quase Secretas do Rap Nacional
Pesquisa sobre o rap brasileiro.
Outros trabalhos
- Edição internacional de 30 Anos do Disco Hip Hop Cultura de Rua, publicada na Argentina com o título El Primer Disco Clásico del Hip Hop Brasileño, com distribuição também no Paraguai, Uruguai, Chile, Colômbia e México.
- Tradução para o português de Rap de Acá – A História do Rap na Argentina, de Martín Alejandro Biaggini, publicado pela Editora Dando a Letra.
- Participação em diversas antologias com contos publicados por diferentes editoras.
Ao falar sobre a escrita, Jeff cita duas frases de Conceição Evaristo que considera fundamentais.
“Conceição Evaristo tem duas frases icônicas: ‘escrever é uma forma de sangrar’ e ‘a gente combinamos de não morrer’. Eu acredito nisso. Quando escrevo, eu sangro, coloco para fora mágoas, angústias, sonhos e frustrações.”
Ele complementa:
“A literatura é um antídoto, uma terapia, e isso me mantém vivo. Por isso combinamos de não morrer. Seguimos lendo, escrevendo, existindo e resistindo.”
Sobre seu processo criativo, o escritor afirma que sente que as histórias já existem dentro dele e que grande parte de sua escrita nasce das próprias experiências.
“A inspiração vem dessa necessidade de dar créditos aos seus devidos donos. Já quando se trata de ficção, muitas vezes ela vem da infância. O livro Garotas de Chuteiras tem muito da minha infância, mas subverti os gêneros e romantizei outras coisas.”
Para quem deseja seguir a carreira literária, Jeff aconselha criar o hábito da escrita.
“O conselho é escrever todos os dias, mesmo que seja uma única frase ou uma única palavra. É a força do hábito. Logo o cérebro pedirá para escrever mais e mais. É um vício bom.”
Ele também destaca a importância das críticas construtivas.
“Aceite os elogios, mas duvide deles. As críticas construtivas ajudam. Nosso texto pode ser perfeito para nós, mas, se não for bom para os leitores, de nada adiantará a nossa equivocada percepção.”
Sobre os próximos projetos, o escritor revela que há muito material aguardando o momento certo de chegar ao público.
“Tenho bastante coisa na gaveta. Está em processo de maturação e, na hora certa, ganhará as ruas.”
Entre as obras em desenvolvimento está o livro infantil O Som das Coisas, que conta a história do hip hop por meio de objetos que ganham vida, como o Vovô Vinilsom e seu neto, o celular Spotifábio.
“Acredito que a criançada vai amar.”
O autor também prepara um estudo sobre o álbum Raio X do Brasil, dos Racionais MC’s, além da coletânea de contos Brinquedo de Furar Moletom, cujas histórias interligadas abordam os impactos da violência.
Mas é um projeto ainda inédito que desperta um carinho especial.
“Posso confessar uma coisa? Tenho um sonho de publicar uma obra ambientada em Jaguariúna.”
Segundo ele, a história pretende mostrar que a cultura da cidade “vai muito além do rodeio”, reunindo elementos como os antigos trilhos da Mogiana, a Revolução de 1932, o primeiro túmulo do Ressurgemus e um misterioso objeto escondido no subterrâneo da Igreja Centenária.
“Quero provar que a cultura do município e da região é ampla e não monotemática.”
Em um período em que livrarias são fechadas e se discute a quantidade de leitores no Brasil, país que perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores e atingiu o menor índice da série histórica, temos autores como Jeff, que representam resistência não somente no gênero que escrevem, mas também no próprio ato de escrever. Neste Dia Nacional do Escritor, sua trajetória mostra que a literatura continua viva e que, enquanto houver quem escreva, leia e resista, as histórias continuarão encontrando seu espaço.


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