25/11/2025

Da memória familiar à sala de exposições: a inspiração de Igor Lima para a criação de “Retratos de um Povo”

Mostra de Igor Lima, em cartaz no Teatro Municipal Dona Zenaide até 15 de dezembro, apresenta retratos de moradores de Jaguariúna e destaca identidade, ancestralidade e expressões culturais locais

Ana Clara Diogo

A exposição “Retratos de um Povo: Faces e Raízes Afrodescendentes sem Filtros” está em cartaz no Teatro Municipal Dona Zenaide desde 21 de novembro e pode ser visitada gratuitamente até 15 de dezembro.

Para entender melhor o processo artístico por trás da mostra, a equipe do Portal ON foi até a exposição de Igor Lima, onde o artista detalhou a forma como cada retrato foi concebido, desde a escolha dos personagens até os momentos de espontaneidade que marcaram suas fotografias

O ponto de partida da exposição nasceu de um encontro inesperado com a própria história de Jaguariúna. O artista Igor Lima conta que a ideia do projeto surgiu em um dia comum, durante uma visita à casa da mãe. Entre fotografias antigas guardadas pela família, ele encontrou retratos de moradores tradicionais da cidade, imagens que despertaram uma profunda vontade de transformá-las em arte.

“Eu estava na casa da minha mãe e me deparei com fotos antigas, entre elas rostos de pessoas tradicionais daqui. Ali nasceu o desejo de retratar essas figuras, de fazer algo significativo com aquelas histórias”, relata o artista.

Pouco tempo depois, Igor se deparou com a abertura do edital da Lei Aldir Blanc voltado para projetos fotográficos. A oportunidade o motivou a transformar aquele impulso emocional em um projeto estruturado. “Peguei aquela ideia que estava nascendo e coloquei no papel de forma organizada e profissional. Por sorte, o projeto foi contemplado”, afirma.

O que começou com fotos guardadas em uma gaveta ganhou corpo e virou uma mostra dedicada a valorizar identidades, ancestralidades e memórias afrodescendentes presentes na cidade. As obras apresentadas no Teatro Municipal Dona Zenaide refletem um processo afetivo que conecta lembranças familiares ao compromisso de registrar e celebrar a diversidade cultural local.

Para Igor Lima, grande parte da força da exposição vem justamente da maneira como cada fotografia nasceu. Segundo ele, o processo não foi apenas técnico, mas profundamente humano, marcado por encontros, conversas casuais e expressões espontâneas que revelaram a verdadeira identidade dos personagens retratados.

Algumas das fotos mais marcantes nasceram de momentos totalmente espontâneos. “Tem algumas fotos aqui, por exemplo, da Dora”, comenta o artista. Dora foi uma das primeiras enfermeiras negras a atuar em Jaguariúna. Corintiana apaixonada como ele, reagiu imediatamente quando Igor brincou: “Dora, e o Coríntians, hein?”

Segundo ele, a expressão surgiu na hora, aquela típica de quem está reclamando do time. “Ela fez essa cara que todo mundo reconhece. A foto dessa reclamação virou a imagem que está na exposição”, afirma.

 

Entre todos os retratados, Igor destaca Seu Clovis como um dos personagens mais singulares. “Ele é uma pessoa que tem pouquíssimas fotos, ele não gosta de foto”, explica. Além disso, havia passado recentemente por uma cirurgia nos olhos, o que exigiu ainda mais cuidado durante a sessão. Em meio à conversa, Igor fez um pedido simples: “Clovis, o senhor pode abaixar o óculos só para eu ver como ficou?” No instante do gesto, a câmera, que já estava ligada, registrou a imagem. “Cliquei, e essa virou a foto dele na exposição”, lembra. Para o artista, o retrato inesperado acabou se tornando um dos mais simbólicos da mostra,  justamente pela espontaneidade e delicadeza do momento.

 

 

Ao ser questionado sobre a fotografia mais emocionante da exposição, Igor Lima revela que foi registrar sua própria mãe. Ele explica que a imagem se destacou esteticamente pelo jogo de luz e sombra, criando uma composição poderosa. Para o artista, trata-se de uma fotografia tão significativa que dispensa qualquer explicação: a própria estética já transmite toda a emoção e a importância do momento.

 

A exposição se conecta com a trajetória do artista, que sempre admirou retratistas e frequentou galerias e museus. A estética fine art sempre foi um objetivo. Nesta primeira exposição, ele deu vida a um plano antigo, focando no tratamento das fotos para realçar a vivacidade, os detalhes e as texturas das pessoas, mantendo a autenticidade com o mínimo de manipulação. O artista utiliza câmeras digitais de última geração, mas emula um estilo antigo através de filtros e granulação, usando a tecnologia a seu favor para criar um aspecto vintage. Ele gosta de fotos quentes e granuladas, que remetem à fotografia analógica, buscando essa sensação em seu trabalho, mesmo utilizando equipamentos digitais por praticidade.

A exposição “Retratos de um Povo: Faces e Raízes Afrodescendentes sem Filtos” permanece aberta à visitação gratuita até 15 de dezembro no Teatro Municipal Dona Zenaide.

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