“Entre o orgulho e a dor é que a maternidade floresce”, relata mãe de Jaguariúna
Silvia Teister compartilha a trajetória de criação da filha com síndrome de Down, o enfrentamento do câncer de outra filha e os aprendizados construídos ao longo da maternidade

Ana Clara Diogo
Neste domingo (10), é celebrado o Dia das Mães. Silvia Teister, moradora de Jaguariúna, compartilha sua história de vida marcada pela maternidade de forma complexa e única. Mãe de três meninas, construiu uma longa carreira nas áreas de hotelaria e hotelaria hospitalar. Mesmo com a rotina intensa no setor de reservas em hotel e também na gestão em hotelaria hospitalar, Silvia já conciliava a carreira com a maternidade e relembra, em tom bem-humorado, situações em que precisou lidar com a vida familiar à distância, chegando a se definir como “mãe de celular”: “Teve um dia que o prédio ligou no meu trabalho informando que a Marcella havia derrubado detergente na piscina e eu tive que falar com ela pelo telefone. Meus colegas ficaram me observando e rindo da situação”, conta.
Quando questionada sobre o que significa ser mãe, Silvia afirma que a maternidade é um exercício constante de tentativa e aprendizado. Ela conta que criou as filhas de forma bastante instintiva, já que, por ter tido uma mãe com problemas de saúde e que exigia cuidados por muito tempo, precisou aprender sozinha a construir sua própria forma de maternar.
Em sua primeira gravidez, nasceu Isabella, que tem síndrome de Down. Silvia relembra que, há 33 anos, não havia tantas informações como hoje sobre maternidade atípica, e que muitas pessoas tentavam enquadrar sua filha em limitações pré-estabelecidas. No entanto, ela decidiu seguir outro caminho.
“Eu procurei tomar minhas decisões com o coração. A Isabella tinha um tratamento que precisava ser mais intensivo, mas eu me perguntava: isso vai fazer bem para ela? Ela não podia dormir durante o dia e era uma criança de um ano. Eu pensei: não, ela vai dormir, vai ter fim de semana. Eu tive que balancear a enxurrada de informações que recebi e filtrar o que era melhor”, relata.
Essa filtragem teve um ótimo retorno. Isabella, hoje com 33 anos, é um exemplo de como é a vida de uma pessoa com síndrome de Down realmente incluída. Ela trabalha, estudou e tem uma vida com qualidade e lazer, tendo crescido de forma plenamente inserida na sociedade.
Na segunda gravidez, foi tudo muito diferente. Já acostumada com um ritmo, veio o furacão Giulia, sua filha que hoje tem 30 anos. Ela começou a andar com 10 meses, em um ritmo completamente diferente. Quando chegou a terceira filha, hoje com 24 anos, ela já estava calejada e relembra uma ida ao pediatra em que tudo já era tão natural que o médico comentou: “Mãe que já tem experiência é isso”.
Ela conta que vive um momento de observar e celebrar as conquistas das filhas, aproveitando essa fase em que pode vê-las sendo promovidas e alcançando seus próprios objetivos. Destaca com orgulho o fato de uma das filhas ter se tornado professora de línguas mesmo sem ter seguido um estudo tradicional de inglês. Silvia afirma que sempre reconheceu a individualidade de cada uma, respeitando suas personalidades, e acredita ter contribuído para formar pessoas do bem. Para ela, essa é a fase mais gratificante da maternidade, quando é possível colher os frutos da criação e acompanhar de perto as realizações das filhas, resumindo: “O maior êxito entre eu e meu marido foi ter formado pessoas tão do bem”.
Durante a conversa, ao ser questionada se em algum momento sentiu que a maternidade a tornava mais forte, Silvia relembra sua primeira gravidez, quando, após o nascimento da filha, foi chamada pelo médico para uma conversa e indagada sobre a síndrome de Down. Ela conta que a notícia foi um divisor de águas em sua vida: “Meu mundo virou de ponta cabeça e, a partir daquele momento, aquela Silvia não é a mesma que saiu. Na hora eu pensei: o que eu farei? O que posso esperar? E depois, conforme as coisas foram acontecendo, eu vi que podia esperar muito. De tudo que eu dava, ela fazia do limão uma limonada. Eu entrei Silvia e saí mãe da maternidade”.
Ela também relembra um dos momentos mais difíceis da maternidade ao descobrir a doença da filha Marcella. Sua caçula tinha apenas 21 anos quando foi diagnosticada com câncer. Ela passou pelo tratamento, se curou, porém, em janeiro deste ano, com 24 anos, descobriu um novo câncer. Silvia afirma que ver uma filha enfrentando o câncer é uma dor difícil de descrever, comparando a sensação a uma das maiores perdas possíveis. “Me lembro de chegar chorando e falar para minha irmã: por que com ela e não comigo? Porque mãe quer pegar a dor para si, e eu pegaria todas as vezes que elas ficassem doentes”, relata.
Ela conta que, naquele momento, precisou parar e compreender seu papel dentro da família. “Eu entendi que não foi para mim que Deus mandou aquilo, mas eu era a força, eu era o pilar da minha família. Eu precisei me manter em pé, me estruturar, me cimentar para conseguir sustentar tudo. E não foi só por mim, era por ela, por todos nós”, afirma, destacando que a união familiar foi essencial para enfrentar o período difícil.
Silvia conta que é justamente nos momentos de alegria e de dor que a maternidade mais se revela. Para ela, “a glória é o orgulho da pessoa que você criou e a dor é que, já que você não pode pegar para você, resta ser suporte de alguma forma”.
Quando perguntada sobre como seria sua vida caso não tivesse sido mãe, afirma que não consegue imaginar essa realidade. Ela diz que já refletiu sobre como teria sido sua trajetória profissional ou até mesmo seu casamento, mas reforça que hoje não se vê mais sem as três filhas, que considera fundamentais em sua história e identidade.
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