02/04/2026

Quando o diagnóstico liberta: a arte de Li Rossi no Dia Mundial do Autismo

Artista de Jaguariúna transformou o autoconhecimento em expressão criativa e encontrou na arte um caminho de identidade e pertencimento

Ana Clara Diogo 

Eliane Rossi é tatuadora, desenhista, empresária e professora. Por um período, teve sua exposição artística apresentada no Teatro Municipal de Jaguariúna, levando ao público um pouco de sua sensibilidade e de sua forma singular de enxergar o mundo. Mas nem sempre Eliane, mais conhecida como Li Rossi, pôde viver da arte.

Li se tornou viúva ainda jovem e, diante da responsabilidade de criar os filhos, decidiu fazer um curso superior para garantir melhores oportunidades para sua família. Durante anos trabalhou no meio corporativo como compradora internacional, área que lhe permitiu oferecer estabilidade e qualidade de vida para seus filhos.

Mesmo assim, o desejo de viver da arte nunca deixou de existir.

Ela conta que sempre quis ser artista. Observadora por natureza e atenta aos detalhes do mundo ao redor, Li sempre teve uma relação intuitiva com a arte. Ainda assim, transformar essa sensibilidade em profissão levou algum tempo. O impulso decisivo veio de onde ela menos esperava: de dentro de casa.

Foi seu filho, Pedro, quem plantou a primeira semente. Durante uma conversa com a mãe sobre o desejo de transição de carreira e suas dificuldades, ele perguntou de forma espontânea:
“— Mãe, por que você não vira tatuadora?”

A resposta veio em tom de riso, afinal, ela sequer tinha tatuagens. Mas aquela frase ficou ecoando. Com o tempo, a ideia começou a ganhar forma e encontrou apoio dentro da própria família, algo que a artista considera fundamental no início de sua trajetória.

“A tatuagem na minha vida também nasceu cercada de apoio”, conta. “Meu filho Pedro foi um dos primeiros a me incentivar, algo que eu nem imaginava que viria dele.” Na época, seu então namorado, hoje marido, Ton, fez questão de ser sua primeira pele humana, gesto que ela guarda como um grande ato de confiança e incentivo.

“Logo depois veio o Lincoln: a segunda pessoa que tatuei foi meu próprio filho, que recebeu sua primeira tatuagem ainda durante o curso”, lembra. Para ele, o momento também teve um significado especial. “Era um sonho de infância ser tatuado, e quem diria que a primeira tatuagem dele seria feita pela própria mãe.”

Para Li, esses gestos marcaram profundamente o início de sua caminhada como tatuadora. “Carrego tudo isso no coração, porque cada um deles fez parte do começo dessa história. Eles me apoiam e se orgulham em cada caminho que sigo.” Esse apoio familiar acabou se tornando um dos pilares que deram segurança para que ela transformasse o desejo antigo de viver da arte em uma nova etapa de sua vida profissional.

A partir daquele momento, com o incentivo das pessoas que mais ama, Li começou a pesquisar e a compreender o universo da tatuagem como uma possibilidade concreta de viver da arte. Por iniciar essa jornada mais tarde, decidiu trilhar esse caminho com responsabilidade e dedicação. Buscou uma formação completa, estudou biossegurança, anatomia da pele, legislação e todo o processo técnico que envolve a prática da tatuagem.

Com o tempo, consolidou uma filosofia que hoje orienta seu trabalho: o artista não é uma impressora e a pele não é papel. Cada corpo reage de uma forma, cada pessoa carrega sua própria história e cada tatuagem se constrói como um processo único entre artista e cliente. O reconhecimento pelo seu talento a levou tão longe que, em determinado momento da carreira, Li teve a oportunidade de viajar a Londres para tatuar, uma experiência que ampliou seu olhar artístico e fortaleceu ainda mais sua trajetória.

Li Rossi e suas fases e faces

Li se considera uma multiartista. Ela produz artes com diversos tipos de técnicas, entre elas aquarela, giz pastel, nanquim e técnica mista sobre papel Canson, além do uso de stencil.

A artista também desenvolve projetos de revitalização de móveis, área em que expressa sua paixão pela chamada decoração afetiva, além de, claro, usar a pele como tela.

Um marco de toda essa trajetória foi sua exposição “Descubra Minhas Faces e Fases”, que teve sua primeira aparição em agosto de 2025 e retornou neste Mês das Mulheres de 2026.

 

Autismo e percepção artística

A artista recebeu o diagnóstico de autismo nível 1 de suporte  aos 46 anos, uma descoberta que trouxe uma nova perspectiva sobre sua própria trajetória de vida e sobre sua produção artística. Longe de representar um limite, esse momento foi vivido como um processo de libertação e autoconhecimento. Ao revisitar suas memórias, muitas experiências da infância e da vida adulta passaram a fazer sentido. “Quando você recebe o diagnóstico, começa a passar um filminho da tua vida desde quando você era criança”, relata. “Você começa a lembrar de coisas que estavam apagadas, adormecidas, quietinhas.”

Esse movimento de olhar para trás permitiu compreender comportamentos que antes eram acompanhados de culpa ou incompreensão. A artista explica que, por muito tempo, tentou se adaptar para pertencer, reproduzindo comportamentos sociais sem perceber que estava se mascarando. “Você não carrega mais culpa de ser diferente ou de se mascarar para pertencer. Até porque você nem sabia que mascarava ou que copiava comportamentos”, afirma. Para ela, o diagnóstico trouxe uma sensação profunda de liberdade.

A partir desse entendimento, passou a desenvolver uma relação mais respeitosa consigo mesma. “Hoje eu consigo me respeitar mais. Respeitar quem eu sou, o que eu quero, como eu quero. Ver que eu sou eu”, diz. Esse processo também a ajudou a compreender sua forma particular de sentir e perceber o mundo. Segundo a artista, pessoas autistas muitas vezes vivenciam as emoções de maneira mais intensa e sensível. “A gente sente de maneira diferente. Às vezes a dor é mais dolorida. A gente se apega muito aos detalhes e quer que as coisas saiam como a gente planejou.”

Essas características, que em alguns momentos podem gerar frustrações ou pequenas dores quando as expectativas não se realizam, também alimentam sua sensibilidade artística e sua atenção minuciosa ao processo criativo. Para ela, arte e autismo se encontram e se fortalecem mutuamente. “Me ajudou a me entender como artista, e a arte me ajudou a aceitar e me entender também”, explica. Em sua visão, essas duas dimensões não podem ser separadas: “Eu acho que, aliás, as duas coisas se unem.”

“É difícil ser reconhecida como autista quando se é considerada ‘funcional’.
Por fora, tudo parece dar conta, mas por dentro existe um esforço constante, silencioso… e uma dor que cansa.

Uma aparência de controle, fingindo sempre que está tudo sob controle.

Atender às expectativas do mundo cobra um preço que nem sempre é visto.
E, quando o diagnóstico vem tarde, ele não chega sozinho.

Vem acompanhado de comorbidades que tornam tudo ainda mais profundo… mais desafiador… mais cansativo de sustentar.

Cada nível carrega suas próprias necessidades.
Todos são legítimos. Todos merecem ser acolhidos.

Autismo não tem cara!” — finaliza a artista.

Assim, o diagnóstico tardio não apenas trouxe respostas pessoais, mas também ampliou sua compreensão sobre o próprio fazer artístico. A arte torna-se, ao mesmo tempo, um espaço de expressão, de elaboração emocional e de afirmação de sua identidade, permitindo que sua sensibilidade, sua percepção intensa do mundo e sua relação profunda com os detalhes se transformem em linguagem e criação.

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