12/02/2026

Aos 92 anos, Lelo mantém viva a memória de quase um século do Bloco da Vaca

Conhecido como “Pai da Vaca”, Geraldo Townsend acompanha a tradição há mais de cinco décadas

Em 2010 (à esq.), Lelo posa com o bisneto ainda criança. Em 2026 (à dir.), seu bisneto foi o responsável pela entrevista e produção da matéria sobre o Bloco da Vaca

Brunno Lucke

Quando a Vaca entra na avenida e o som da bateria começa a ecoar, Artur Nogueira revive uma história que atravessa gerações. Em 2026, o Bloco da Vaca chega à 96ª edição. Entre tantas pessoas que ajudaram a manter a tradição de pé, um nome se confunde com a história da própria festa: Geraldo Townsend, o Lelo.

Aos 92 anos, ele continua acompanhando a preparação e os desfiles. Para a cidade, tornou-se o “Pai da Vaca”. Para o repórter que assina esta reportagem, é também o bisavô, presença constante nas lembranças de infância e na construção do significado que o carnaval tem dentro da família.

Lelo concedeu entrevista especial ao Portal ON, contando sobre a história do Bloco e suas experiências vividas neste período.

Segundo ele, começou a participar do bloco quando tinha cerca de 38 anos, pouco depois de se mudar definitivamente para a área urbana do município. “Eu tinha uns 38 anos. Na época a Vaca saía do Delmo Duzzi”, recorda.

Na memória, a principal diferença entre aquele tempo e o atual, com a avenida tomada por milhares de pessoas, está na forma da brincadeira. Antes, diz, a Vaca tinha espaço para correr. O encontro com o público era mais direto, mais imprevisível.

“A diferença é que naquele tempo a Vaca brincava na rua, a Vaca corria atrás de gente. Agora hoje não tem mais jeito, tem muita gente. A turma corre atrás da vaca, não a Vaca que corre atrás do povo.”

Tradições do Bloco da Vaca

Mesmo com o crescimento do evento, algumas coisas seguem praticamente iguais no início. Uma delas, é o jeito de construir a Vaca. Lelo conta que o trabalho começa mais de um mês antes do carnaval e exige paciência, força e cuidado.

“Um mês e meio antes a gente tinha que ir cortar cipó, deixar dar uma inchada. Depois montar, pôr a cabeça, fazer o corpo, tudo amarrado com arame. A gente passava borracha em cima pra não machucar. Depois vinha a espuma, o pano, a pintura […] Levava base de um mês.”

Segundo ele, a tradição atravessou o tempo quase intacta. A montagem da Vaca teria passado por apenas uma grande mudança significativa: “Naquele tempo era bambu, hoje é cipó. Mas o pano é o pano mesmo, a cabeça é cabeça de vaca mesmo.”, conta.

Desde 2015, o Bloco da Vaca é reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo, transformando em documento algo que Lelo já carregava havia décadas no peito.

“É uma lembrança que eu vou ter pro resto da vida. Eu sempre pertenci e até hoje gosto de ver, de estar por perto da Vaca.”

Lelo também ponderou sobre o sucesso do bloco, e como a tradição atravessa gerações e continua atraindo o grande público. “A turma gosta de ver a Vaca na rua. Desde criança, o mais velho, o mais novo, enchem a avenida. […] Falou do Bloco da Vaca, o povão tá na rua.”, afirma.

Entre todos os momentos possíveis, há um que ele espera ano após ano, sempre com o mesmo olhar de quem vê pela primeira vez. “É ver ela dar a cabeçada. Ver a vaca derrubando.”, contou rindo. Para Lelo, esse é o momento mais especial do carnaval. “É essa que eu gosto de ver.”, brinca.

Continuidade da tradição

Aos 92 anos, Lelo já não corre pela avenida como antes, mas continua onde sempre esteve: por perto. Observando, orientando, sendo reconhecido por sua contribuição.

Hoje, ele é a história viva do Bloco da Vaca, parte da engrenagem que mantém a tradição ativa desde muito antes de boa parte dos foliões nascer.

Neste ano, na 96ª edição do bloco, a Vaca volta às ruas como de costume no domingo (15) e na terça-feira (17). E, enquanto ela avança pela multidão, também carrega junto a história de quem ajudou a sustentá-la por décadas, gente como Lelo, que fez da tradição um compromisso de vida e transformou o carnaval em herança de família.

………………………………………………………….

Tem uma sugestão de reportagem? Clique aqui e envie para o Portal ON

É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site Portal ON sem prévia autorização por escrito do Portal ON, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido.


Comentários

Não nos responsabilizamos pelos comentários feitos por nossos visitantes, sendo certo que as opiniões aqui prestadas não representam a opinião do Grupo Bússulo Comunicação Ltda.