15/07/2025

Documentário de cineasta nogueirense trata dos efeitos do abuso sexual infantil na fase adulta

Estreia de Brunno Vaz à frente de um projeto documental reunirá relatos pessoais de vítimas e de especialistas no tema

O documentário “O Ladrão da Infância” é a segunda obra de Brunno Vaz, cineasta independente de Artur Nogueira – Foto: Wendy Maira

Felipe Pessoa

Brunno Vaz, 32, que em 2024 criou, dirigiu e atuou em um filme sobre um socorrista do SAMU que vê seus dilemas e fantasmas do passado interferirem em sua vida profissional, trabalha agora em um documentário sobre as repercussões do abuso infantil já na fase adulta da vítima.

Intitulado “O Ladrão da Infância”, a peça de não-ficção já está em etapa de filmagens e marca a estreia do cineasta na produção de materiais documentais. Até então, Brunno havia lidado apenas com ficção.

Essa foi uma das principais diferenças sentidas pelo diretor, que leva Steven Spielberg como sua maior inspiração. Enquanto em “Resgate”, que estreou em janeiro deste ano, o processo teve maior peso na etapa da criação do enredo, a produção de um documentário gira em torno de outro eixo: o da pesquisa.

Para ele, o processo foi “totalmente diferente, porque além do roteiro existe a pesquisa jornalística, apurando os fatos, dados e acontecimentos”.

Com abordagem classificada por Vaz como “investigativa e reflexiva”, a produção contou com o trabalho da produtora Erika Prado para a pesquisa de entrevistados, que aparecerão no documentário relatando suas experiências pessoais. A prioridade, para Brunno, foi conservar o caráter conscientizador e alertador do produto.

“A escolha das pessoas para compor o elenco dos entrevistados foi difícil, pois recebemos muitos relatos, um mais pesado que o outro”, conta o diretor, e diz: “Então, dentre as histórias, escolhemos as que mais faziam sentido para a produção”.

Para a seleção dos entrevistados, pesou, para Vaz e Prado, quais deles tinham histórias com mais camadas e ramificações e quais forneceriam material mais reflexivo e aprofundado e, consequentemente, um produto final mais robusto.

“De todas as histórias que chegaram para nós, eu e a Erika lemos várias vezes cada uma, para escolher as que tinham mais camadas para serem contadas, sabe? E levamos em consideração a conversa com o entrevistado, como eles conversavam, se eles mesmos, ao responderem uma pergunta, conversavam de forma fluída, contínua…, porque isso ajuda muito na linguagem documental”, relata Vaz.

Com previsão de duração de 30 minutos, a peça reunirá relatos de vítimas de abuso sexual na infância e terá a participação de especialistas e autoridades – Foto: Wendy Maira

A obra também vai contar com a participação de profissionais de saúde mental e de segurança pública, que devem acrescentar uma visão mais técnica da problemática.

Segundo dados obtidos pela Fundação Abrinq, a violência sexual no Brasil atinge maioritariamente crianças e adolescentes. Em 2022, 45 mil das mais de 62 mil notificações recebidas pelo órgão tinham como vítimas pessoas menores de 19 anos de idade. Proporcionalmente, três em cada quatro casos de violência sexual no Brasil envolvem crianças ou adolescentes.

Uma das dificuldades da produção no processo de encontrar participantes foi localizar vítimas masculinas. “Tínhamos um [entrevistado homem] já marcado para gravar. Mas pensando melhor na exposição, ele acabou desistindo”, conta Brunno.

A ideia de que o abuso sexual, quando se trata de homens, é rondado de um peso e estigmas diferentes influenciou o projeto do cineasta. “Eu tinha muito claro que queria homens relatando sobre isso, porque é um tabu muito grande! E, durante o processo de pesquisa, eu me deparei com mais de 15 casos de homens que foram abusados, hoje com mais de 50 anos, com família, filhos…, e, na maioria [das vezes], com dores psicológicas por não buscar ajuda”, detalha.

Não é a primeira vez que a temática de como homens lidam com feridas emocionais aparece na obra de Brunno. Em Resgate, Gabriel (interpretado por Vaz) é um socorrista dedicado do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que, sob a superfície heroica, passa por conflitos emocionais.

No longa, o protagonista é obrigado a enfrentar as questões que ignora e secundariza depois de falhar em uma operação, que termina com a morte da vítima. Uma crise de pânico faz com que ele entre em uma espiral de angústia ante a descoberta de que, em algum momento, precisará encarar as próprias emoções.

Segundo dados obtidos pela Fundação Abrinq, a violência sexual no Brasil atinge maioritariamente crianças e adolescentes – Foto: Wendy Maira

Foi uma escolha deliberada trabalhar a questão da saúde mental sob o recorte da masculinidade. “Hoje se fala mais sobre saúde mental, então os jovens de hoje têm mais acesso a esse cuidado e consideram normal ter um acompanhamento psicológico, coisa que nossos pais não tinham. Não era bem-visto pela sociedade alguém fazer terapia. E aí entra a questão do homem, da masculinidade”, relatou Vaz em entrevista ao Portal On.

Segundo o cineasta, a obra terá cumprido sua função se conseguir levantar o debate e fazer com que “a sociedade entenda que abuso sexual ainda existe, ainda mais no momento cultural que vivemos hoje”, e diz que espera que “as pessoas que passaram por isso tomem coragem, abram o coração, falem com amigos e, principalmente, com um profissional da saúde mental”.


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