09/04/2026

Entre lápides e memórias, histórias de Artur Nogueira seguem vivas no Cemitério da Saudade

Projeto “Desenterrando Histórias”, da Casa da Memória, convida a revisitar o passado da cidade e revela personagens marcantes que ainda ecoam na memória popular; relembre algumas histórias

Foto: Brunno Lucke/Portal ON

Brunno Lucke

O silêncio do Cemitério da Saudade, em Artur Nogueira, em meio a corredores, nomes gravados em pedra e flores deixadas por familiares, também esconde histórias que seguem vivas no imaginário popular nogueirense, mas não apenas na memória de quem visita, como também na própria identidade da cidade.

É nesse cenário que o grupo Casa da Memória promove o “Desenterrando Histórias”, uma visita guiada que propõe um olhar diferente sobre o espaço. Mais do que percorrer túmulos, a ideia é percorrer trajetórias.

O idealizador do projeto, Geso Franco de Oliveira, reforça que o foco não está em mistérios sobrenaturais, mas nas pessoas. “Não conhecemos nenhuma história assustadora sobre assombrações e forças do além. Por isso vamos valorizar as histórias de gente como nós”, disse.

Esse passeio, que dura cerca de uma hora e meia e percorre aproximadamente um quilômetro dentro do cemitério, integra a programação de aniversário da cidade e deve ter novas edições nas próximas semanas. Mas, para além do roteiro guiado, o próprio cemitério já funciona como um verdadeiro arquivo a céu aberto.

Foto: Portal ON

Dos nove prefeitos de Artur Nogueira que já faleceram, oito estão sepultados ali. Entre os emancipadores do município, dez dos onze também estão enterrados no local, todos identificados com placas em seus túmulos.

Dessa forma, a própria história do município é contada pelo seu cemitério. Algumas delas permanecem vivas, de geração em geração, relembre e descubra algumas das mais famosas e interessantes histórias escondidas do Cemitério da Saudade.

A morte que parou a cidade

Em outubro de 1972, Artur Nogueira viveu um de seus momentos mais marcantes.

Gustavo Beck, jovem conhecido na cidade, morreu após um acidente na represa de Cosmópolis. Considerado por muitos como um “bon-vivant” da época, dono de posto de gasolina, músico e figura popular, Beck era também alguém profundamente querido na cidade.

Naquele domingo dos anos 70, ele havia saído para mais um encontro comum entre amigos, com lancha e churrasco à beira da água. Durante a volta, após uma manobra, a embarcação virou. Mesmo ferido, conseguiu salvar as pessoas que estavam com ele antes de desaparecer na represa.

O corpo só foi encontrado dias depois. Durante esse período, moradores se revezaram em vigílias à beira da água. Famílias inteiras permaneceram no local, enquanto equipes buscavam por Beck. Há relatos de que a cidade praticamente parou: comércios funcionando parcialmente, conversas interrompidas e uma atenção coletiva voltada a um único acontecimento.

O luto foi público e compartilhado. Décadas depois, o nome ainda é lembrado por quem viveu aquele período. Hoje, seu túmulo encontra-se próximo à capela do cemitério.

 

Foto: Brunno Lucke/Portal ON

A benzedeira e a pomba branca

Outra figura que permanece viva na memória popular é a de Francisca Maria de Jesus, conhecida como Chica Benta. Essa é uma das histórias mais populares entre moradores locais, que recordam com carinho de tais acontecimentos.

Benzedeira, ela era procurada por moradores da cidade e da zona rural, em uma época em que práticas desse tipo faziam parte do cotidiano. Histórias sobre crianças atendidas por ela, supostamente curadas por suas rezas, ainda circulam entre os mais antigos.

Sua casa também era ponto de apoio para quem vinha do sítio à cidade, fosse para buscar água, descansar ou se preparar para eventos religiosos. Chica Benta utilizava de sua fé no Espírito Santo em suas benzeduras.

Após sua morte, a comoção foi grande na cidade. E um detalhe, até hoje lembrado, acabou se tornando parte da narrativa popular: durante o velório, uma pomba branca (símbolo do Espírito Santo) teria pousado no caixão, antes de ser enterrado, e permanecido ali por alguns instantes, resistindo a sair.

Para muitos, um gesto simbólico. Para outros, apenas coincidência. Mas, como tantas histórias do cemitério, o episódio segue sendo contado. Seu túmulo encontra-se à esquerda da capela.

Foto: Portal ON

Entre mármore e significado

Nem todas as histórias estão apenas nas pessoas, algumas estão nas próprias construções. Também se engana quem diz que não há obras chamativas no Cemitério de Artur Nogueira.

No Cemitério da Saudade, alguns túmulos chamam atenção pelo nível de detalhamento e acabamento. São obras assinadas por Lelio Coluccini, escultor italiano que atuou na região de Campinas e produziu peças em mármore que até hoje se destacam.

Na época, famílias com maior poder aquisitivo viajavam até Campinas para escolher modelos de túmulos, que depois eram transportados e montados em Artur Nogueira. Muitos desses monumentos carregam simbologias: escadas que representam a passagem entre o terreno e o espiritual, anjos apontando para o céu, elementos religiosos e referências à fé.

Mais do que sepulturas, são registros artísticos de um período, e de uma forma de enxergar a morte.

Foto: Portal ON

Uma homenagem internacional

Entre os personagens históricos da cidade, João Pulz ocupa lugar de destaque. Imigrante austríaco e figura importante na formação de Artur Nogueira, ele está enterrado no Cemitério da Saudade em um túmulo que também carrega sua própria história.

A sepultura foi encomendada por Fernando Arens (outro nome primordial na história do município), diretamente de Hamburgo, na Alemanha, e possui inscrições em alemão. Sendo uma homenagem que atravessou continentes para marcar sua importância.

Hoje, o sobrenome Pulz permanece ligado à história do município, e segue como um dos mais “tradicionais” de Artur Nogueira.

Foto: Portal ON

O homem que todos conheciam

Nem só de figuras influentes é feita a memória de uma cidade.

Nos anos 1980 e início dos anos 1990, um homem simples se tornou conhecido por praticamente todos os moradores: Piá-Piá, como era chamado, caminhava pelas ruas, pedia ajuda, conversava, fazia parte da rotina urbana.

Seu nome verdadeiro era Benedicto de Lima. Piá-Piá, apesar da vida humilde, era querido. Sua presença constante acabou transformando-o em uma figura simbólica da cidade.

Após sua morte, em 1991, houve mobilização para garantir que tivesse um sepultamento digno. Um projeto aprovado pela Câmara Municipal isentou seu túmulo de taxas, e a própria comunidade se organizou para construir a sepultura.

Mais do que isso: sua história permaneceu na boca do povo nogueirense.

Foto: Portal ON

O Desenterrando Histórias

O projeto “Desenterrando Histórias”, que motivou e auxiliou na produção desta reportagem, não pretende contar tudo, e talvez nem pudesse.

Para os organizadores, cada visita revela apenas parte do que está ali. O restante permanece nas lápides, nos detalhes, nas memórias compartilhadas de boca a boca. E, para eles, fica claro: algumas histórias nunca são enterradas.

Esse projeto seguirá com visitas ao Cemitério da Saudade, contando algumas dessas, entre outras dezenas de histórias emblemáticas sobre a cidade de Artur Nogueira.

Foto: Divulgação/Casa da Memória

………………………………………………………….

Tem uma sugestão de reportagem? Clique aqui e envie para o Portal ON

É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site Portal ON sem prévia autorização por escrito do Portal ON, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido.


Comentários

Não nos responsabilizamos pelos comentários feitos por nossos visitantes, sendo certo que as opiniões aqui prestadas não representam a opinião do Grupo Bússulo Comunicação Ltda.