18/05/2026

Fisioterapeuta de Artur Nogueira transforma paixão pelo esporte em carreira internacional

Alice Alves Pires, de 25 anos, integra delegação brasileira em competições organizadas pelo COB

Alice com a medalha da delegação dos Jogos Sul-Americanos da Juventude

Wagner Luan

A fisioterapeuta Alice Alves Pires, de 25 anos, vem ganhando destaque na área esportiva ao integrar a equipe brasileira em competições internacionais. Com quatro anos de atuação profissional, ela construiu sua trajetória a partir de trabalhos voluntários até alcançar eventos organizados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). Recentemente, a nogueirense esteve no Panamá junto da delegação brasileira nos Jogos Sul-Americanos da Juventude.

Especialista em esporte e atividade física, Alice relata que a escolha pela profissão foi influenciada por diferentes momentos marcantes de sua vida.

É impossível eu não lembrar do meu professor de matemática do 3º ano do Ensino Médio, da Escola Munhoz, chamado Hércules. Se não fosse pela insistência dele em todas as reuniões de pais para conversar com a minha mãe, Rosana, e com o meu pai, Bruno, muito provavelmente hoje eu estaria seguindo outros horizontes. Recordo perfeitamente que estávamos na fase de prestar vestibular e decidir o que faríamos depois da formatura. Eu tinha certeza de que seguiria a área da Fotografia, e o professor Hércules sempre dizia: ‘Alice, tenta um vestibular, você tem capacidade. Faça algo voltado para Publicidade e Propaganda, mas não deixe de tentar’. Entre uma aula e outra, cheguei com a notícia: ‘Professor, prestei vestibular para Fisioterapia, agora é só aguardar o resultado’. Ele ficou tão feliz, como se a minha conquista também fosse dele. Na verdade, a conquista do aluno também é do professor. Já tive a oportunidade de agradecê-lo pessoalmente, mas queria deixar aqui mais uma vez o meu muito obrigada, não só a ele, mas a todos os professores que me apoiaram, me ensinaram e batalharam junto comigo. Todos vocês são seres iluminados por Deus e merecem reconhecimento, respeito e aplausos todos os dias”, iniciou.

A decisão de atuar na Fisioterapia veio através do nascimento da minha irmã, Bruna. Ela nasceu com 34 semanas e ficou internada na Unidade de Terapia Intensiva. Como eu era menor de idade e o ambiente de uma UTI neonatal é delicado, eu não poderia entrar para vê-la, mas, de tanto insistir aos profissionais, consegui ficar dois minutos dentro da incubadora, observando minha irmã e tantas outras vidas lutando dia após dia pela sobrevivência. Assim que entrei na UTI neonatal, vi uma fisioterapeuta manuseando a Bruna e outros lactentes. Me chamou atenção a forma como aquela profissional zelava e se dedicava à profissão. Eu enxerguei nela mais do que uma fisioterapeuta; ela estava ali fazendo o papel de mãe, pai e irmã. Só quem trabalha com o que ama entende isso”, completa.

“Durante a minha graduação e fase de estágios, principalmente na UTI, uma das frases que mais ouvi era: ‘O paciente não é só o paciente, ele é o amor de alguém’. A frase estava estampada em um bloco cirúrgico do Hospital Dom João Becker e me fez refletir sobre a forma como cuidamos, reabilitamos e estamos presentes mesmo quando ninguém da família pode estar. Não tem como ser profissional da saúde e ignorar vínculos. Lidamos com vidas, somos humanos e precisamos de afeto. Muitas vezes, quem está na linha de frente é quem consegue acolher.

Permaneci durante um ano da graduação acreditando que seguiria na Fisioterapia Neonatal, mas, já no segundo ano da faculdade, percebi que o esporte era a minha casa. Era onde eu sentia adrenalina, felicidade e desafio. Quando mais nova, jogava futebol e participava de um projeto social de ginástica olímpica na cidade. A vivência com o esporte vem desde cedo. Quando compreendi que a Fisioterapia é uma área ampla, pensei: ‘Por que não unir duas paixões: reabilitação e esporte?’. É justamente aqui onde estou hoje, trilhando meu espaço para devolver autoestima, confiança e retorno ao esporte sem dores. Gosto de mostrar aos pacientes que, por mais desafiadora que seja, a Fisioterapia entrega resultados e que conviver com dores jamais deve ser considerado normal”, relembrou.

Apesar do interesse inicial pela área hospitalar, foi no esporte que encontrou sua vocação. Ex-atleta amadora de futebol e praticante de ginástica olímpica na infância, decidiu unir a reabilitação ao universo esportivo. Desde então, atua com foco na recuperação de atletas e na promoção de qualidade de vida, buscando devolver autoestima, confiança e desempenho sem dor.

Assim que me formei, entre 2018 e 2022, busquei alternativas para trilhar meu sonho, adquirir experiências, vivências e networking. Foi quando comecei a entender melhor como funcionavam os eventos esportivos, o trabalho voluntário dentro da área da saúde e como eu poderia atuar mesmo com pouca experiência. A minha grande sorte foi ter pais e avó que me apoiaram muito nesse processo. Eu tinha acabado de sair da graduação, grande parte da minha renda havia sido investida nos anos de faculdade e, mesmo assim, entendia a importância de não desistir e fazer esses trabalhos acontecerem. Sempre enxerguei o lado bom das coisas. Eu só queria viver meu sonho no esporte e estava disposta a abrir mão de muita coisa. Mas o meu sonho deixou de ser apenas meu e virou parte das metas dos meus pais e da minha avó, Carmina. Todo o suporte para viajar, me manter nos locais de trabalho e viver experiências memoráveis veio deles. Não é apenas dinheiro, é dedicação, carinho, conforto e palavras de apoio. Eu saí de casa para conhecer o outro lado do mundo e acabei fazendo dele o meu lar”, afirmou.

Segundo Alice, foi em um dos trabalhos voluntários realizados nos Jogos da Juventude de 2023, em Ribeirão Preto, organizados pelo COB, que ela foi descoberta. “Sempre foi meu sonho, desde a graduação, fazer parte do Time Brasil e representar o meu país através da profissão que escolhi para a vida. Na minha primeira experiência nos Jogos da Juventude como voluntária, fiquei encantada pela estrutura, organização e logística. Enxerguei ali o meu propósito de vida e o motivo para continuar tentando. Assim como em qualquer trabalho, me dediquei muito e vivi intensamente cada fase das competições com atletas que serão os futuros medalhistas do Brasil.

Ter tido a oportunidade de atuar como fisioterapeuta colaboradora do COB nos Jogos da Juventude 2024, em João Pessoa, e nos Jogos Sul-Americanos da Juventude no Panamá, em 2026, provou para mim mesma que o nosso caminho é construído diariamente. Sou fruto do voluntariado e tenho orgulho de dizer isso em voz alta. Me orgulho do caminho que percorri e das inúmeras situações das quais precisei abrir mão para viver o que vivo hoje. Não mudaria nada e faria tudo novamente”, declarou.

Ela também destacou as dificuldades enfrentadas até conquistar espaço no esporte de alto rendimento. “É mais complexo explicar como cheguei ao Time Brasil do que parece. Aqui estou fazendo um resumo, mas o processo foi muito árduo. Eu realmente comecei do zero. Não tinha contatos, não conhecia fisioterapeutas que trabalhavam na área e os grandes eventos esportivos aconteciam, em sua maioria, na capital paulista e fora do Estado. Foi um passo de cada vez, plantando sementes e esperando elas germinarem. Fiz cursos, participei de congressos, desenvolvi pesquisas científicas e procurei me inserir de alguma forma”, contou.

A entrada no cenário esportivo ocorreu após a graduação, quando passou a participar de eventos como voluntária. A partir daí, Alice atuou como fisioterapeuta colaboradora em competições nacionais e internacionais, entre elas:

  • Fisioterapeuta durante os Jogos Sul-Americanos da Juventude no Panamá, pelo Comitê Olímpico do Brasil (2026);
  • Embaixadora do Esporte Universitário da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU) entre 2024 e 2025;
  • Fisioterapeuta durante os Jogos da Juventude pelo COB (2023 e 2024);
  • Fisioterapeuta no evento mundial FISU Championship Beach Sports, pela CBDU (2024);
  • Coordenadora de voluntários da Associação Nacional de Desporto para Deficientes (ANDE) na Copa do Mundo de Bocha Paralímpica (2024);
  • Orientadora de hospitalidade na Formula E, durante a ABB FIA Formula E World Championship (2024);
  • Fisioterapeuta pelo Movimento Superação Bebedouro (MSB) durante o III Torneio Regional Paulista de Rugby em Cadeira de Rodas da Associação Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas (ABRC) (2024);
  • Fisioterapeuta voluntária durante as Paralimpíadas Escolares, etapa nacional, pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) (2023);
  • Entre outras prestações de serviços esportivos.

Alice voltou recentemente do Panamá, onde atuou com a delegação brasileira nos Jogos Sul-Americanos da Juventude.

A experiência no Panamá foi única e muito acolhedora. Foi a minha primeira viagem internacional e ainda tive o privilégio de representar o Brasil através da minha profissão. Foi uma felicidade enorme quando recebi o convite e uma alegria gigantesca acordar todos os dias pronta para o próximo desafio. O meu propósito nos Jogos Sul-Americanos foi trazer o maior conforto possível aos nossos atletas, reabilitar e até mesmo aconselhar. Dentro do setor de Fisioterapia, percebo que também existe um espaço de acolhimento, e isso é muito bacana, porque mostra que os atletas confiam em toda a equipe.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a diversidade cultural. Apesar de estar representando uma equipe brasileira, também represento a minha nação. Compartilhar experiências, hábitos e ideias com profissionais de outros países foi uma troca riquíssima e espero viver isso mais vezes. Agradeço a cada pessoa que cruzou o meu caminho e tornou isso possível, principalmente aos meus pais e à minha avó, porque sem eles eu nada seria”, finalizou.

Os Jogos Sul- Americanos da Juventude ocorreram na Cidade do Panamá, entre 12 e 25 de abril deste ano e  reuniu mais de 2.000 jovens atletas, de 14 a 17 anos, representando 15 nações da América do Sul em 22 modalidades esportivas.

………………………………………………………….

Tem uma sugestão de reportagem? Clique aqui e envie para o Portal ON

É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site Portal ON sem prévia autorização por escrito do Portal ON, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido.


Comentários

Não nos responsabilizamos pelos comentários feitos por nossos visitantes, sendo certo que as opiniões aqui prestadas não representam a opinião do Grupo Bússulo Comunicação Ltda.