Iraci do Bar: a mãe que transformou trabalho e fé em uma história de superação em Artur Nogueira
Mãe de três filhas e avó, ela enfrentou jornadas duplas de trabalho para sustentar a família após a separação

Iraci é hoje é mulher conhecida pelo carisma, alegria e educação que trata as pessoas
Wagner Luan
Neste domingo, 10 de maio, data em que é celebrado o Dia das Mães, o Portal ON homenageia mulheres que transformaram dificuldades em histórias de superação. Entre elas está Iraci de Jesus Santos, conhecida carinhosamente como “Iraci do Bar”, moradora de Artur Nogueira há cerca de 35 anos e exemplo de força, dedicação e maternidade.
Aos 58 anos, Iraci carrega uma trajetória marcada pelo trabalho duro, pela fé e pela luta para criar sozinha as três filhas — Maria, Letícia e Danila — hoje adultas e com famílias constituídas. Avó de Mariane, Gustavo, Marina e Sophia, ela divide atualmente o tempo entre duas paixões: o restaurante que se tornou referência na cidade e a roça, lugar onde encontra tranquilidade em meio às plantações.

Ela lutou para criar praticamente suas três filhas
Infância marcada pelo trabalho
Natural de Aracatu, no interior da Bahia, Iraci relembra uma infância difícil. Aos sete anos, foi morar com a avó, onde passou a ajudar nos afazeres domésticos e no trabalho rural. “Meu avô criava porco, galinha, fazia requeijão, e eu ajudava na produção para vender. Limpava os toucinhos para levar para a feira. Foi uma infância difícil, trabalhei muito na roça”, recorda.
Aos 17 anos, ela se casou e passou a viver com a família do pai de suas filhas. Ainda na Bahia, nasceram Maria e Letícia. Em busca de melhores oportunidades, a família decidiu migrar para São Paulo, iniciando uma trajetória marcada por desafios e idas e vindas entre os dois estados.

Iraci com os netos, sua paixão
Recomeço em Artur Nogueira
Foi através do irmão, Edivo — a quem define como “braço direito” — que Iraci conseguiu recomeçar em Artur Nogueira. Já morando na cidade, ele ajudava famílias vindas da Bahia oferecendo moradia temporária até que conseguissem se estabilizar. “Ele me trouxe para cá, me apoiou na casa dele e depois voltou para me buscar quando eu já não tinha mais condições”, conta.
Os primeiros anos foram difíceis. Iraci dividiu moradia com outras famílias e precisou procurar trabalho imediatamente. Pouco depois de chegar à cidade, conseguiu emprego em uma empresa da região. “Cheguei em um domingo e na segunda-feira já fui pedir serviço”, lembra.
Ela iniciou a trajetória profissional em uma empresa do setor de flores e plantas e, posteriormente, passou a trabalhar na Schomaker, empresa que considera fundamental em sua vida. Foi nesse período que nasceu a filha mais nova, Danila.
Segundo Iraci, o salário da fábrica era usado exclusivamente para comprar materiais de construção. Paralelamente, ela vendia doces durante o horário de almoço para complementar a renda e garantir o sustento da casa. “Construí minha casa e meu bar através desse trabalho. O dinheiro da empresa era para comprar material de construção”, afirma. “Eu não tinha almoço. Na hora do almoço eu vendia doces. Esse dinheiro era para fazer a despesa da casa”, completa.

O surgimento do bar
Com esforço e planejamento, Iraci e o então companheiro começaram a construir o patrimônio da família. O sonho dela era garantir segurança e um futuro melhor para as filhas. “Eu pensava nelas o tempo todo. Queria conseguir uma casa para cada uma”, diz.
Foi nesse contexto que surgiu o bar da família, criado inicialmente como uma alternativa para aumentar a renda. Enquanto o companheiro trabalhava no estabelecimento, Iraci conciliava o comércio com a rotina nas empresas da região.

A separação e a maternidade solo
A vida, no entanto, reservou novos desafios. O casamento terminou, e Iraci precisou assumir praticamente sozinha a criação das três filhas, então com 14, 12 e oito anos. “Às vezes eu chorava, mas não tinha como parar. Se eu não trabalhasse, não tinha comida em casa”, relata.
A rotina se tornou ainda mais intensa. Após o expediente em Holambra, ela chegava em casa, abria o bar para atender os clientes e, ao final da noite, ainda preparava a comida das filhas e a marmita para o dia seguinte. “Eu chegava do serviço e já ia abrir o bar. Depois fazia a comida delas e a minha para levar no outro dia”, recorda.
Mesmo diante das dificuldades, Iraci afirma que nunca perdeu a fé. “Fui à luta pedindo força para Deus”, afirma.
Ela diz que criou as filhas “atrás de um balcão”, conciliando jornadas exaustivas de trabalho para garantir dignidade e oportunidades às meninas. Apesar da ausência causada pela rotina intensa, ela se orgulha da educação que conseguiu transmitir. “Minhas filhas são meu maior orgulho. Nenhuma tem vício, nenhuma me deu desgosto”, afirma emocionada.

O valor da maternidade
Sem ter tido oportunidade de estudar, Iraci sempre incentivou as filhas a priorizarem a educação. Muitas vezes, não conseguia participar das reuniões escolares porque não podia faltar ao trabalho, mas fazia questão de orientar as meninas diariamente. “Eu falava para elas estudarem e fazerem o melhor. Eu não podia faltar no trabalho porque precisava sustentar a casa”, relembra.
Além dos estudos, ela também ensinava responsabilidade dentro de casa, pedindo ajuda nas tarefas domésticas enquanto trabalhava para manter as contas em dia.
Hoje, ao olhar para trás, Iraci afirma sentir gratidão pela trajetória construída. “Tem hora que eu nem acredito que sou eu mesma. Agradeço muito a Deus por tudo que consegui”, destaca.
Para ela, a maternidade é uma das maiores bênçãos da vida. “Ser mãe é indescritível. Eu me emociono só de falar. Minhas filhas são uma bênção para mim”, afirma.

Fé, tradição e reconhecimento
Devota de Nossa Senhora Aparecida, Iraci organiza todos os anos festas para crianças e excursões religiosas para a cidade de Aparecida. Ao lado das filhas e dos genros, também realiza a tradicional Festa Julina promovida em frente ao bar da família, evento que se tornou um dos mais aguardados pela comunidade e reúne milhares de pessoas todos os anos.
A história de Iraci se mistura à de tantas mulheres que deixaram suas cidades natais em busca de uma vida melhor e, no caminho, precisaram assumir sozinhas a responsabilidade de criar os filhos. Histórias de mães que encontraram na coragem, no trabalho e na fé a força necessária para seguir em frente.


………………………………………………………….
Tem uma sugestão de reportagem? Clique aqui e envie para o Portal ON
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site Portal ON sem prévia autorização por escrito do Portal ON, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido.
Comentários
Não nos responsabilizamos pelos comentários feitos por nossos visitantes, sendo certo que as opiniões aqui prestadas não representam a opinião do Grupo Bússulo Comunicação Ltda.
