02/11/2026

Moradoras transformam a limpeza de túmulos em gesto de carinho e acolhimento em Artur Nogueira

Há anos, Kátia e Terezinha encontram no trabalho uma forma de complementar a renda, mas também descobriram no cemitério um ambiente de paz, respeito e dedicação à memória de quem partiu

Da redação

Para muitos, o Dia de Finados é um momento de saudade, reflexão e homenagem àqueles que já partiram. É quando os cemitérios recebem um número maior de visitantes, que levam flores, fazem orações e procuram deixar as sepulturas de seus entes queridos mais bonitas e cuidadas. Em Artur Nogueira, por trás desse trabalho de preparação, estão mulheres que fazem da limpeza dos túmulos uma atividade marcada não apenas pelo compromisso profissional, mas também pelo carinho e pela identificação com esse ambiente.

Kátia Simone da Rocha Santos, de 54 anos, que há 15 anos trabalha com a lavagem e conservação de sepulturas.  Ela conta que começou a trabalhar no ramo quando precisava cuidar do pai, com a ajuda da mãe. Após a morte da mãe, encontrou na limpeza dos túmulos uma alternativa para complementar a renda, já que não podia assumir um emprego com registro devido à necessidade de permanecer disponível para cuidar do pai. “Eu comecei como um complemento para ajudar, porque não podia trabalhar registrada por causa do meu pai. Aí foi indo, peguei o gosto, agora virou um vício”, conta.

Atualmente, ela trabalha principalmente aos sábados e, eventualmente, em feriados. O serviço funciona, em grande parte, por indicação e pelo contato direto com as famílias que frequentam o cemitério. Algumas contratam uma limpeza pontual e, depois, passam a solicitar a manutenção periódica.

Kátia mantém aproximadamente 70 sepulturas em sua rotina regular. O atendimento pode ser quinzenal ou semanal, conforme a necessidade e a preferência de cada família.

Em períodos especiais, porém, o movimento cresce consideravelmente. Datas como Dia das Mães, Dia dos Pais e, principalmente, o Dia de Finados representam um aumento expressivo na procura. Segundo ela, nesses momentos, o número de serviços pode ultrapassar 200 lavagens.

Mesmo diante da rotina intensa, Kátia afirma que não encara o ambiente do cemitério com medo ou desconforto. Pelo contrário: diz que se sente bem e encontra tranquilidade no trabalho. “Tem pessoas que não gostam de ficar aqui. Eu já gosto, me sinto bem, me sinto em paz. Para mim, não tem esse tabu de ficar trabalhando aqui”, relata.

Uma trajetória de 23 anos de dedicação

A história de Terezinha de Almeida Santos de Lima, de 61 anos, também começou em um momento de necessidade. Funcionária pública, ela iniciou o trabalho de limpeza de túmulos há 23 anos, quando o marido enfrentava problemas de saúde. “Quando meu marido estava doente, comecei para ajudar com o problema dele, com a doença dele. Agora eu faço porque não consigo parar mais. Me apeguei em continuar”, conta.

Terezinha concilia a atividade com o emprego regular e trabalha no cemitério aos sábados e feriados. Atualmente, mantém uma carteira de aproximadamente 85 sepulturas, com serviços realizados de forma periódica.

Assim como acontece com Kátia, a procura aumenta nas datas comemorativas e, especialmente, no período de Finados. Um detalhe chama a atenção: parte dos clientes de Terezinha mora em outras cidades e depende do serviço para manter os túmulos de seus familiares cuidados mesmo à distância.

Ela atende famílias de municípios como Leme, São Paulo, Limeira e Mogi Mirim. Muitas vezes, o contato começa quando alguém a vê trabalhando no cemitério e pede informações sobre o serviço.

Há famílias que contratam a manutenção mensalmente, enquanto outras procuram a profissional apenas nas datas especiais.

O atendimento também envolve uma relação de confiança. Depois de realizar a limpeza, Terezinha fotografa a sepultura e envia as imagens aos familiares, que podem acompanhar o resultado mesmo estando longe. Em alguns casos, os clientes também solicitam que ela compre flores para a homenagem. Ela envia a nota fiscal e recebe posteriormente o reembolso. “Eu gosto, me sinto bem. Parece que estou ajudando. Eu me sinto muito bem aqui”, afirma.

Além das duas, muitas outras pessoas trabalham no mesmo ofício, mantendo as sepulturas limpas e arrumadas para famílias que muitas vezes não conseguem fazer isso regularmente.

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