“A medicina é uma resposta que vem de Deus”, diz Padre Carlos ao enfrentar câncer
Pároco de Santo Antônio de Posse fala sobre a relação entre fé e tratamento, o apoio recebido da comunidade e uma trajetória sacerdotal marcada pela perseverança

Foto: Portal ON
Brunno Lucke
A Igreja Matriz de Santo Antônio, em Santo Antônio de Posse, vem recebendo diversas melhorias e renovações. Há quase seis anos, desde que assumiu a Paróquia Santo Antônio, o Padre Carlos Roberto Panassolo acompanha de perto essas transformações.
A revitalização das capelas, por exemplo, foi uma das primeiras iniciativas de seu período à frente da comunidade. A Matriz ficou por último, em um projeto pensado também para marcar os 130 anos da paróquia, que serão completados em 2028. Essas mudanças também incluíram vitrais, mosaicos e outras estruturas.
É nesse cenário, entre obras, símbolos religiosos e a rotina da comunidade católica de Santo Antônio de Posse, que Padre Carlos vive agora uma mudança que não estava nos planos.
Ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal ON, em que contou sobre a nova luta em sua rotina.
Aos 55 anos, completados no último dia 22 de outubro, o pároco enfrenta um câncer. O diagnóstico, segundo ele descoberto na segunda quinzena de junho, alterou sua rotina e o obrigou a reduzir atividades, aceitar ajuda e seguir um tratamento que inclui quimioterapia e acompanhamento de diferentes profissionais.
Mas o tratamento não é o único assunto que aparece quando Padre Carlos fala sobre o momento que atravessa. Para ele, a medicina não está em oposição à fé. As duas fazem parte do mesmo caminho.
“Eu não consigo ver uma coisa sem a outra”, pondera.
De acordo com o sacerdote, o conhecimento científico também pode ser compreendido dentro de sua espiritualidade. Para isso, ele cita um dos sete dons do Espírito Santo, a ciência, e entende que o conhecimento desenvolvido pelo ser humano pode ser uma ferramenta para enfrentar as dificuldades.
“A medicina é uma resposta que vem de Deus por meio da inquietude do coração humano”, diz. Para ele, tratamentos e medicamentos nasceram de pessoas que transformaram uma situação de dor em uma busca por esperança. “E essa esperança tem um nome: medicina.”, completa.
É assim que Padre Carlos tem procurado conduzir o próprio tratamento: sem abandonar a oração, mas também sem abrir mão da medicina.
O diagnóstico e seu enfrentamento
O diagnóstico veio na segunda quinzena de junho. Naquele momento, a família do sacerdote já passava por questões complicadas em relação a saúde. Por isso, inicialmente, o Padre decidiu por não contar à família sobre sua própria condição.
O início, ele reconhece, não foi simples. “Porque justamente quando a gente recebe o anúncio, é uma bomba”, relata. O médico, segundo ele, apresenta possibilidades, caminhos e etapas que ainda precisam ser compreendidos. “No começo parece que o chão some, você fica meio inseguro.”
Foi nesse momento que a espiritualidade passou a ocupar um lugar ainda mais concreto na rotina do sacerdote.
Padre Carlos conta que se voltou para a passagem bíblica em que Cristo está no Horto das Oliveiras, diante do sofrimento, e afirma: “Seja feita a Tua vontade”. Ele diz que também buscou referências na vida de Santos que passaram por situações de dor e, segundo ele, não deixaram de se colocar como instrumentos da fé.
Foi essa perspectiva que também orientou a carta aberta publicada por ele em 13 de outubro, quando decidiu tornar pública a situação de saúde. Na mensagem, Padre Carlos agradeceu à família, aos amigos, aos profissionais de saúde e aos paroquianos pelo apoio e citou São Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece”.
O apoio da comunidade
A reação veio de diferentes lugares. Depois da publicação, dezenas de fiéis passaram a manifestar apoio nas redes sociais e na igreja. Para Padre Carlos, entretanto, as mensagens tiveram um significado que foi além da solidariedade ao tratamento. Elas trouxeram lembranças.
“Cada mensagem foi uma provocação”, começa. Segundo ele, muitas pessoas não apenas diziam que estavam rezando por sua saúde, mas também relembravam experiências vividas ao lado dele, momentos de dor e situações pelas quais haviam passado.
“Então, para mim, foi como você pegar um livro e relê-lo novamente. E você vê que muitas páginas foram marcadas.”
Para o sacerdote, as mensagens fizeram com que ele revisitasse sua trajetória e percebesse que sua relação com os fiéis também havia sido construída em momentos anteriores de sofrimento.
Padre Carlos ainda relatou que o apoio não veio apenas de membros da Igreja Católica. Ele conta que também recebeu mensagens de pastores e integrantes de outras denominações religiosas.

Foto: Reprodução/Paróquia Santo Antônio
Fé não substitui tratamento
Ao falar sobre o próprio tratamento, o Padre faz questão de colocar a medicina no centro da conversa. Ele agradece aos profissionais que passaram a acompanhá-lo e cita, entre eles, o médico que acompanha seu caso e a psicóloga que o acolheu durante o processo.
Para o sacerdote, as diferentes frentes não competem entre si. “A medicina e a fé, elas caminham lado a lado”, afirma.
Ele entende que o paciente também precisa participar ativamente do processo. A medicação cumpre sua função, mas existe uma parte que cabe à própria pessoa: buscar apoio, aceitar ajuda e encontrar forças para continuar.
É nesse ponto que Padre Carlos estabelece uma relação entre tratamento médico e um dos relatos de cura presentes nos Evangelhos.
Ele lembra, com muito apreço e emoção, a passagem Bíblica em que Jesus coloca barro nos olhos de um homem e depois determina que ele se lave. Para o sacerdote, o episódio mostra que, mesmo quando a cura é possível, existe um caminho a ser percorrido.
“A cura é real, mas é preciso que você dê alguns passos.” Na interpretação de Padre Carlos, é justamente aí que aparece o papel da medicina. “O Senhor nos toca, mas é preciso que você faça a sua parte para que o milagre se faça completo.”
A fala não significa, para ele, substituir o tratamento por uma expectativa de cura espiritual. Ao contrário: buscar o tratamento é parte daquilo que entende como fazer a própria parte.
Respeitar os próprios limites
O câncer também modificou a rotina sacerdotal. Antes do tratamento, Padre Carlos conta que estava acostumado a uma agenda mais intensa. Aos finais de semana, chegava a celebrar três missas aos sábados e cinco aos domingos. Agora, passou a celebrar apenas uma missa, conforme sua disposição e as orientações médicas.
“É o que o seu corpo hoje permite”, resume.
A mudança não foi simples para alguém acostumado a conduzir as atividades da paróquia pessoalmente. “Como a gente estava acostumado a correr atrás de tudo e fazer tudo no seu ritmo, e de repente você tem que entender que não é desse jeito agora.”
Nesse processo, outros padres, diáconos e seminaristas passaram a auxiliar na comunidade. A parte administrativa também continua com o apoio do Conselho Econômico.
As obras da igreja, que tem grande participação e acompanhamento ativo por parte do Padre, por sua vez, também seguem ocorrendo normalmente.
“Nós estamos lutando com a vida”
A experiência do câncer também mudou a maneira como Padre Carlos compreende quem enfrenta o sofrimento.
Ele compara essa transformação a viajar para um lugar sobre o qual alguém já havia contado. Antes, é possível imaginar a paisagem; depois de chegar lá, alguns detalhes ganham outro significado.
A experiência o ensinou a esperar, respeitar o próprio corpo, compreender limites e aceitar que outras pessoas façam aquilo que ele costumava fazer sozinho.
“Permitir com que o outro te ajude. Permitir com que o outro faça.”, descreve.
É dessa posição que ele fala com quem recebeu um diagnóstico difícil. A primeira recomendação é não se entregar ao desespero. Para ele, a doença pode lembrar a fragilidade humana, mas não deve retirar da pessoa seus projetos, seus sonhos e sua esperança.
“Nós não estamos lutando contra a morte. Nós estamos lutando com a vida. Nós estamos clamando pela vida.”
A recomendação seguinte é não se fechar. A dor, segundo ele, pode levar uma pessoa a se afastar dos outros. Por isso, é importante ter alguém que escute, procurar ajuda e manter a espiritualidade, seja ela qual for.
Até mesmo a oração, reconhece, pode parecer diferente durante uma doença.
Padre Carlos chama esse período de “deserto”: um momento em que a fé parece não produzir resposta imediata. Mas, para ele, deserto não significa abandono. “É onde então eu tenho que ser perseverante e caminhar.”, afirma.

Foto: Reprodução/Paróquia Santo Antônio
Padre Carlos Roberto Panassolo, O Perseverante
A relação de Padre Carlos com a perseverança, porém, começou muito antes do diagnóstico neste ano.
Ele conta que sua vocação surgiu ainda na adolescência. Havia, entretanto, uma dificuldade que parecia incompatível com a ideia de seguir o sacerdócio: a gagueira.
Aos 14 anos, ele ouviu de seu padre de origem uma pergunta que ficou marcada: “Como é que você quer ser padre, se você mal consegue falar?”
A frase foi, segundo ele, um “balde de água fria”. O jovem Carlos então buscou outro caminho e cursou Tecnologia em Edificações pela Unicamp. Precisou morar fora de casa e viver uma experiência diferente daquela que imaginava para si. A vocação, entretanto, permaneceu.
Depois de concluir a faculdade, voltou a procurar o caminho do seminário. Inicialmente, encontrou novamente dificuldades por causa da gagueira, mas acabou sendo acolhido e ingressou, em 1995, no Seminário de Campinas.
Durante a formação em Filosofia e Teologia, fez acompanhamento com fonoaudióloga e psicólogo. A gagueira não desapareceu completamente, porém, Padre Carlos diz que aprendeu a conviver com ela.
“Deixei de ser gago? Não. Eu aprendi a conviver com a minha gagueira.”
A dificuldade que um dia foi apresentada como um possível impedimento acabou se transformando em parte de sua história.
Quando Padre Carlos foi Ordenado, em 2001, o sacerdote que havia questionado sua vocação chegou a pedir desculpas publicamente. Na ocasião, usou uma frase que o padre ainda guarda com carinho:
“Você fez da sua teimosia a perseverança.”
Ordenado diácono em 2000 e presbítero em 2001, Padre Carlos iniciou o Ministério na Paróquia Divino Espírito Santo, em Holambra, e na Paróquia Santa Maria, em Jaguariúna, onde seguiu por dois anos.
Depois disso passou oito anos na Paróquia Nossa Senhora Aparecida dos Prados, em Itapira, e outros dez anos na Paróquia São Sebastião, em Amparo, sua paróquia de origem.
Depois de mais de duas décadas de sacerdócio, chegou a Santo Antônio de Posse. Hoje, quase seis anos depois de assumir a Paróquia Santo Antônio, conduz uma comunidade que atravessa com ele um período de mudanças, seja na estrutura da igreja ou também na vida do próprio pároco.
As orações
No dia 22 de outubro, ao completar 55 anos, Padre Carlos acompanhou à distância parte das orações realizadas na Paróquia Santo Antônio. A igreja estava cheia. Pessoas de diferentes gerações participaram do momento, enquanto outros grupos permaneciam unidos em oração.
Para ele, aquele encontro foi um presente. Ele conta que a reação da comunidade também alterou a maneira como ele compreende a palavra gratidão.
Hoje, Padre Carlos entende que a palavra “gratidão” significa pertencimento, cuidado e a presença de alguém que oferece a mão quando a pessoa está sofrendo, mas também ajuda a dar o próximo passo.
Por isso, seu pedido aos fiéis não é apenas que rezem por ele. “Rezem por mim e por tantos outros que passam pela mesma fragilidade.”
É nessa combinação que Padre Carlos parece encontrar o caminho que vem percorrendo: a oração que sustenta, a medicina que trata, a comunidade que acompanha e a disposição de continuar caminhando mesmo quando o corpo exige outro ritmo.
“E para nós não existe fim, existe plenitude. Portanto, caminhamos sempre em direção ao bem maior a vida, Cristo.”, finaliza.
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