Dia das Mães: conheça a história de adoção que transformou dor em recomeço para família possense
Silvia Helena de Souza Borges conta como a chegada do filho Adrian Jean mudou sua vida após perdas gestacionais

Fotos: Arquivo Pessoal/Silvia Borges
Brunno Lucke
Neste domingo (10) em que se celebra o Dia das Mães, o Portal ON conta uma história marcada por perdas, fé, reencontros e amor. Em Santo Antônio de Posse, uma família aprendeu a transformar a dor em recomeço e encontrou na maternidade um novo significado para a vida.
Entre lutos profundos e a realização de um sonho construído além dos laços de sangue, a trajetória de Silvia Helena de Souza Borges e do filho, Adrian Jean Souza Borges, revela como o amor pode reconstruir caminhos e ressignificar destinos.
A moradora de Santo Antônio de Posse compartilha uma trajetória marcada por fé, perdas profundas e um reencontro com a vida através da adoção. Uma história que começou muito antes da chegada de Adrian Jean Souza Borges, hoje com 20 anos é estudante de Psicologia e músico por amor.
O destino de ser mãe
Segundo ela mesma, a maternidade sempre existiu dentro de si, antes mesmo de existir um filho. Durante o tempo de namoro com o marido, Edson, o casal dividia planos de nomes escolhidos para seus futuros filhos. Seja nessas longas conversas, ou até nas orações silenciosas feitas durante anos, Silvia relata que, para ela, ser mãe nunca foi apenas um sonho: era destino.
Hoje, Silvia e o marido estão casados há 25 anos. E, desde o início do relacionamento, os dois falavam abertamente sobre família. Entre tantos planos, havia uma certeza: teriam filhos, inclusive um adotivo.
“A gente dizia que um nasceria do ventre e outro do coração”, relembra. Contudo, entre o sonho e a realização, existiu um caminho longo e doloroso.

O caminho
Durante quatro anos, Silvia tentou engravidar. Nesse período, a espera passou a se misturar com frustrações, consultas, medos e orações diárias. Devota de Nossa Senhora das Graças, ela conta que repetia o mesmo pedido todos os dias.
“Eu falava para Nossa Senhora: ‘Se eu não posso gerar meu filho, me empresta o teu útero para eu gerar o meu’. […] Eu nasci para ser mãe. Não saberia passar por esse mundo sem viver isso.”
A primeira gravidez terminou em um aborto espontâneo. Pouco tempo depois, veio uma nova gestação. O menino já tinha nome e quarto preparado, esperando sua chegada. João Matheus nasceu aos oito meses, mas já sem vida.
Silvia ainda fala sobre aquele momento com pausas longas e a voz atravessada pela memória.
“Entrar no cemitério com um caixãozinho branco nos braços é a pior dor do mundo. Só uma mãe que enterra um filho sabe o tamanho dessa dor.”
A perda transformou completamente a vida do casal. O luto ocupou a casa, os pensamentos e os dias. Mas, em meio à devastação, uma decisão começou a surgir quase imediatamente. Poucas semanas depois do enterro do bebê, Silvia e Edson decidiram interromper as tentativas biológicas e seguir o caminho da adoção.
“Meu marido falou: ‘Não vamos mais sofrer’. E nós fomos atrás da adoção.”, conta.
Processo de adoção e chegada de Adrian Jean
O casal iniciou todos os trâmites legais e entrou oficialmente na fila. Silvia lembra que saiu do processo de habilitação fazendo contas e imaginando quanto tempo levaria até o filho chegar. O desejo parecia distante, mas o encontro aconteceria antes do que ela imaginava.
De acordo com ela mesma, era um sábado quente em dezembro de 2006, quando a notícia sobre uma criança que precisava de uma família chegou até eles. Horas depois, Silvia segurava Adrian Jean nos braços pela primeira vez.
“Eu falo para ele que a gestação dele durou seis horas.”, relata, bem-humorada.
Silvia conta que quase não consegue recordar daquele momento por causa da emoção. Quem reconstruiu a cena depois foi uma amiga de infância que estava ao lado dela naquele dia.
“Ela (a amiga) fala que eu abri os braços e disse: ‘Vem com a mamãe’. E ele veio.”
Adrian tinha apenas um ano de idade. Silvia diz que, naquele instante, sentiu algo impossível de explicar racionalmente. Como se o filho já pertencesse àquela casa antes mesmo de chegar. Ela afirma que, o quarto preparado para João Matheus, silencioso desde a perda do bebê, finalmente ganhava vida.
“Quando eu voltei para casa com ele nos braços, foi o dia mais feliz da minha vida. O quarto já estava pronto, e eu entendi que ele sempre foi do Jean.”

Mudanças após a maternidade
A maternidade mudou completamente sua rotina. Conforme havia combinado com o marido ainda antes do casamento, Silvia deixou o trabalho para se dedicar integralmente à criação do filho.
Ela organizava toda a casa antes de Adrian Jean acordar para passar o restante do dia ao lado dele, ensinando, brincando, acompanhando cada descoberta da infância.
Foi ainda pequeno que Adrian demonstrou paixão pela música. Primeiro vieram os violões de brinquedo. Depois, os instrumentos reais. Hoje, toca violão, violino, violoncelo, teclado, piano, guitarra, baixo e outros instrumentos, além de cantar.
A mãe ainda conta que a adoção jamais foi escondida dentro de casa. Pelo contrário. Desde pequeno, Adrian Jean cresceu ouvindo sua própria história contada com naturalidade, carinho e verdade.
“Nós nunca escondemos nada dele. Sempre falamos que existia um papai e uma mamãe querendo muito um filho e um filhinho precisando de uma família. E que Deus uniu a gente.”
Segundo Silvia, a maior vitória da família foi fazer Adrian entender que pertencimento não nasce do sangue.
“O que faz uma família não é o sangue. É o amor.”, afirma.
Adoção, forma de amor genuíno
Ela acredita que ainda existe muito preconceito e desinformação sobre adoção. Para Silvia, muitas pessoas enxergam o ato de adotar como caridade, quando, na verdade, deveria ser visto como maternidade e paternidade em sua forma mais genuína.
“A adoção não pode servir para satisfazer ego. Não é dó. Não é caridade. É amor. É querer ser pai e mãe de verdade.”
Ela também relembra o acolhimento recebido pela comunidade de Santo Antônio de Posse. Amigos, vizinhos e membros da igreja participaram intensamente daquele novo começo.
“O Jean não foi adotado só por mim e pelo Edson. Ele foi adotado por toda a comunidade possense.”
Hoje, aos 20 anos, Adrian segue construindo os próprios sonhos, enquanto Silvia observa a vida do filho com a mesma emoção de quem ainda se lembra do menino correndo pela casa pela primeira vez.
Neste Dia das Mães, ela resume sua história em poucas palavras, talvez as únicas capazes de traduzir duas décadas de maternidade construída no afeto:
“Gerar qualquer pessoa pode gerar. Ser mãe é outra coisa. Ser mãe transpassa os laços de sangue. Vem da alma.”
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